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O Estudo da Administração da Educação na Virada do
Século
Benno Sander Professor Universitário de Gestão da
Educação
Palestra proferida em novembro de 1999 no XIX Simpósio
Brasileiro e I Simpósio Luso-Brasileiro de Administração da Educação,
realizados em Santos, SP, sob os auspícios da ANPAE e do Fórum
Português de Administração Educacional, e posteriormente publicado como
capítulo de livro editado por MACHADO, Lourdes M. & FERREIRA, Naura
Syria (Orgs.), Política e gestão da educação: dois olhares. Rio de
Janeiro: DP&A Editora/ANPAE, p. 55-68, 2002.
Introdução
Os organizadores do XIX Simpósio Brasileiro de Política e Administração da
Educação da ANPAE e do I Simpósio Luso-Brasileiro de Administração da Educação
convidaram-me para fazer uma reflexão sobre o estudo da administração da
educação no momento em que nos preparamos para iniciar o século XXI. Pelos laços
que me unem à ANPAE, não poderia deixar de atender o convite que oportunamente
me foi formulado por Regina Vinhaes Gracindo e Rinalva Cassiano Silva.
Aumenta minha satisfação por compartilhar a mesa com Licínio Lima,
companheiro de preocupações acadêmicas da Universidade do Minho em Portugal, e
por sermos presididos por Rinalva Cassiano Silva, protagonista na organização
deste eventos organizados pela ANPAE. Não tenho a pretensão
de resumir o estado da teoria da administração da educação no fim do século. Na
realidade, essa não é tarefa fácil e está além dos objetivos deste painel. Não é
tarefa fácil fazê-lo para um país, muito menos para latitudes mais amplas. No
entanto, o exame da literatura internacional especializada nas ciências sociais
e a leitura dos recentes relatórios das reuniões internacionais de educação me
faz lembrar uma recente reportagem intitulada "pouco se cria e muito se
repete." Há inúmeros estudos empíricos e informações dispersas sobre o estudo e
a prática da administração da educação, mas existe pouco conhecimento novo e
pouca construção de novos caminhos no campo da administração da educação para
enfrentar os desafios das tranformações econômicas e sociais da atualidade.
A idéia de que “pouco se cria e muito se repete” não é privilégio da educação
e da gestão educacional. Em recente pesquisa empírica realizada por Cristina
Brandão no Rio de Janeiro,1 ela revela que os comportamentos, as idéias e os
gostos da juventude mudaram muito pouco nos últimos 30 anos. Ela mostra como os
jovens de hoje continuam repetindo os pais em sua conduta e seu modo de pensar.
Em matéria de música, por exemplo, ela registra que nos anos setenta o ritmo da
onda era o rock; o rock continua sendo a preferência da juventude de hoje.
Caetano Veloso era então um de nossos ídolos; Caetano continua sendo um dos
artistas preferidos de nossos filhos, se bem que o Alegria, Alegria de então
tenha dado lugar ao Sòzinho do seu último disco.
Nosso dramaturgo Plínio Marcos, filho ilustre desta cidade de Santos que
faleceu prematuramente na semana passada, observa que o mesmo fenômeno ocorre em
outras expressões culturais e artísticas nacionais, como o teatro e a
literatura. Lembro aqui como Plínio Marcos reagia quando era premiado e quando
suas peças, como Dois Perdidos Numa Noite Suja (1965) e Navalha na Carne (1967),
eram remontadas com sucesso de público e da crítica especializada até a presente
década. Sua explicação para o sucesso era de que o Brasil real, o Brasil da
grande maioria do povo, o Brasil pobre havia mudado muito pouco nas últimas três
décadas.
Examinando mudanças na gestão da educação
Essas observações indicam que a educação não é um fenômeno social isolado no
espaço e no tempo. Os paralelos que se observam em outras práticas sociais e
culturais confirmam esta hipótese. Em perspectiva temporal, é possível
observar que, em grande parte, a efervescência intelectual do período
preparatório da Cúpula das Américas de 1998 em Santiago, que privilegiou a
educação como a chave do progresso, tem semalhanças com o otimismo pedagógico
dos anos setenta. Um exame mais detalhado dos recentes desenvolvimentos
educacionais revela que esse fenômeno também ocorreu no campo específico da
política e da administração da educação. Dou um exemplo. Faz quase duas
décadas que o Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras e a ANPAE em
coedição com a Universidade Federal do Ceará publicaram meu estudo sobre a
evolução da teoria da administraçao educacional no Brasil.2 O estudo
desenvolve uma perspectiva multidimensional de administração da educação que
emerge de minha leitura histórica da teoria organizacional e administrativa
adotada na educação brasileira. No trabalho enunciei quatro paradigmas de gestão
educacional – administração eficiente, administração eficaz, administração
efetiva e administração relevante. Os quatro paradigmas fundamentam-se em seus
respectivos princípios orientadores ou critérios de desempenho: eficiência
econômica, eficácia pedagógica, efetividade política e relevância
cultural.
Quase duas décadas depois, observamos que os compromissos educacionais
assumidos no Capítulo Educação do Plano de Ação da Segunda Cúpula das Américas
sustentam-se nos seguintes quatro princípios: eficiência, relevância, eqüidade e
qualidade. Esses princípios e suas definições, concebidas ao longo de dois anos
de trabalho de representantes dos ministérios de educação das Américas e
especialistas internacionais, são muito semelhantes às definições concebidas
duas ou tres décadas antes, como o revelam as publicações daquela época.
O que sim é diferente hoje é o entorno internacional, cujas forças econômicas
e políticas condicionam a formulação das políticas públicas e a gestão das
instituições sociais, incluindo a escola e a universidade. O fato é que hoje nos
deparamos com um novo e poderoso cenário econômico que define o contexto global
das transformações que ocorrem neste fim de século. O novo cenário econômico tem
sua expressão maior na globalização, associada à revolução microeletrônica, que
dá origem à chamada sociedade global da informação. A nova economia da sociedade
global tem como base o acesso ao conhecimento e sua eficiente utilização.
Trava-se assim uma luta de poder internacional pelo direito e acesso ao
conhecimento cientítfico e tecnológico e pelo direcionamento da sociedade
global.
As instituições de pesquisa e desenvolvimento dos países industrializados
participam ativamente desse processo, conduzido em parceria estratégica com as
corporações multinacionais e os governos dos países que disputam a hegemonia
econômica e cultural do mundo. Nesse contexto, mais importante que o
domínio sobre o hardware tecnológico é o domínio intelectual do software, pois é
esse domínio intelectual que tem influência decisiva sobre a orientação
ideológica e cultural das novas gerações. É por essa razão que as
universidades de excelência dos Estados Unidos, por exemplo, não medem esforços
para recrutar e financiar os estudos dos melhores jovens profissionais em
disciplinas como lógica, matemática, física e ciências da informação e
comunicação. Minha observação me indica que não precisamos fazer um
levantamento sistemático para verificar que a mesma atenção e as mesmas
oportunidades não são oferecidas, em nenhuma parte do mundo, aos alunos dos
cursos de pós-graduação em educação.
Esses fatos levam-me a destacar duas preocupações na América Latina.
Primeiro, os governos e a sociedad em geral não atribuem a devida prioridade
política e econômica à educação, em particular à formação de professores,
pesquisadores e administradores educacionais. Segundo, enquanto os países
mais desenvolvidos investem maciçamente em pesquisa e desenvolvimento nas
instituições de ensino superior, é preocupante assistir ao abandono da
universidade pública no Brasil e em outros países da América Latina. No
Brasil, o problema é particularmente grave, porque mais de 90% das pesquisas
científicas do País são realizadas nas universidades federais e estaduais.
A globalização e suas implicações para a gestão da
educação
A literatura produzida nos últimos anos sobre o processo de globalização na
economia e na sociedade destaca suas múltiplas oportunidades e riscos. Os
dados revelam que a globalização oferece mais oportunidades para alguns do que
para outros e, conseqüentemente, mais riscos para estes do que para
aqueles. Os fatos revelam a assustadora ineqüidade na distribuição dos
resultados do processo de globalização, tanto entre os países como entre os
cidadãos no interior dos países. Esses dados são particularmente
preocupantes para os países em desenvolvimento.
Nesse contexto, a América Latina apresenta elevados índices de desvantagem
comparativa em relação com os países desenvolvidos. Sua gravitação
internacional diminui à medida que crescem as exigências de conhecimentos ou
investimentos em relação com as diversas atividades estratégicas. Esse
fato está associado ao nosso limitado acesso à informação e utilização do
conhecimento. Efetivamente, nossa participação no mercado global de
tecnologias da informação é de apenas 2% e temos somente 1% dos endereços da
Internet. Em comparação com o mundo desenvolvido, a proporção dos usuários
de computadores pessoais é de 1 para 10 e a relação do número destes conectados
à rede mundial é de 1 para 58.3 Poderíamos dizer que a população do
planeta se divide entre os conectados e os não-conectados, vale dizer entre os
que participam e os que não participam, entre os que usufruem e os que não
usufruem dos resultados do desenvolvimento.
O último dado estatístico é particularmente preocupante. Por quê?
Porque a utilização da tecnologia virtual é hoje um fator determinante do acesso
instantâneo aos bancos de dados e à análise imediata de padrões e tendências em
qualquer campo da atividade humana, que nos permite tomar decisões
fundamentadas, diminuir o tempo de produção de bens e prestação de serviços e
resolver os problemas com que nos defrontamos diariamente em nossas
organizações. Em seu último livro – Business and the Speed of Thought –
publicado há poucos meses, Bill Gates utiliza a expressão “sistema nervoso
digital” para definir o funcionamento da organização moderna. Argumenta
que a organização funciona melhor se o fizer como um sistema nervoso que troca
informações instantânea e permanentemente entre todas as partes do sistema, tal
como ocorre no organismo humano. Referindo-se à importância da informação,
êle argumenta que “o modo como se coleta, administra e utiliza a informação
determina se vamos ganhar ou perder”.4 Embora se trate de argumento
imbuído do espírito econômico e competitivo do mundo dos negócios, aventuro-me a
pensar que, se quisermos conquistar melhores níveis de educação e participar
mais efetivamente na construção do conhecimento, para que seja um conhecimento
relevante, precisamos desenvolver nossa capacidade de acesso, criação e
utilização inteligente e consciente da informação.
Permito-me mencionar outras cifras enunciadoras de igual situação. Por
exemplo, comparativamente com os países desenvolvidos, cuja renda média per
capita é 3,5 vezes superior à nossa, gastamos com educação oito vezes menos por
habitante e, fato mais grave ainda, gastamos 13 vezes menos nos níveis de ensino
pré-escolar, básico e secundário, e seis vezes menos no ensino superior.
Em números absolutos, o gasto per capita anual com educação básica na América
Latina é de US$143,00, enquanto nos países desenvolvidos é de US$1.089,00.
Além disso, menos de 20% dos jovens da respectiva faixa etária estão
matriculados no ensino superior; em contraposição, nos países desenvolvidos esse
índice é de 50%, ou seja, um de cada dois jovens faz estudos de nível
pós-secundário. Considerando o total da população, aqui a escolaridade
média chega a cinco anos; lá é de 10 anos.5
Esses dados revelam que temos enormes desafios diante de nós na América
Latina, como em outras partes do mundo em processo de desenvolvimento.
Conseqüentemente, são enormes as expectativas em relação ao papel e à
contribuição da educação em todos os seus níveis e modalidades de ensino.
Uma das tarefas mais difíceis dos educadores e dirigentes da educação é a de
criar condições propícias para a formulação e implantação de políticas
educacionais capazes de promover o desenvolvimento de uma educação de qualidade
para todos, com a finalidade preparar cidadãos capazes de participar
conscientemente na definição dos destinos de nossa aldeia global e de nossas
pequenas aldeias comunitárias em nível local. No centro dessa tarefa está
a crescente convicção de que todos – educadores, pais, alunos, membros da
comunidade em geral – somos estudantes e parceiros na construção e distribuição
do conhecimento. Nessa perspectiva, os que fizemos da educação e da
administração da educação nosso interesse profissional, temos a missão de
propiciar e facilitar o processo de aprendizagem e de construção do
conhecimento. Em conseqüência, impõe-se a necessidade de investir
prioritariamente na profissionalização permanente dos educadores, pois se
quisermos melhores escolas, precisamos melhores educadores e oferecer melhores
condições de trabalho.
Alguns desafios específicos para a administração da
educação
Para a consideração dos participantes deste painel, preparei algumas notas
sobre o estudo e a prática da administração da educação no contexto do processo
de mundialização da economia e da atividade humana. Em primeiro lugar,
observamos que a administração pública e a administração educacional estão
recebendo atenção crescente por parte de governos nacionais, organismos
internacionais, universidades e instituições de ensino e pesquisa em
geral. Esta é uma mudança fundamental. Lembro-me dos tempos em que
os professores da disciplina da administração escolar, inicialmente
desenvolvida no Brasil a partir da década de trinta sob a influência do que
passava na Europa e nos Estados Unidos, lutavam para conquistar seu espaço no
conjunto dos currículos e programas das Faculdades de Filosofia, Ciências e
Letras de nossas universidades. Um capítulo decisivo na história da
administração da educação no Brasil foi sem dúvida a fundação da Associação
Nacional de Professores de Administração Escolar (ANPAE), hoje Associação
Nacional de Política e Administração da Educação. Essa inicitiva, liderada
por Anísio Teixeira da Universidade do Brasil, Querino Ribeiro e Carlos Correa
Mascaro da USP, Antônio Pithon Pinto da Universidade Federal da Bahia, Paulo de
Almeida Campos da Universidade Federal Fluminense e muitos outros eminentes
educadores, lançou as semestes de um movimento nacional que contribuiu
decisivamente para a consolidação da administração educacional como campo
profissional de estudo no Brasil.
A partir dos anos sessenta, o estudo da administração da educação no Brasil
registra significativos desenvolvimentos. Nesse contexto, não é gratuito
que o Capítulo Educação do Plano de Ação da II Cúpula das Américas de 1998 tenha
destacado, entre suas linhas prioritárias de ação, a gestão da educação e a
profissionalização dos professores e dirigentes de ensino. A literatura
especializada poduzida ao longo dos anos pelos organismos internacionais e
pelas universidade e instituições públicas e privadas de pesquisa e
desenvolvimento destacam a crescente importância atribuída à administração da
educação como um dos fatores explicativos do sucesso ou fracasso relativo das
instituições educacionais.
Os relatórios internacionais e os estudos no âmbito universitário também se
referam às definições e critérios de desempenho adotados na prática da
administração da educação. Em muitos ambientes, especialmente nas agências
internacionais de crédito, as palavras-chave que definem a orientação
intelectual no campo da organização e da gestão da educação são eficiência e
produtividade. Esses critérios são hoje definidos à luz da lógica da
competitividade própria de modelo neoliberal que preside o mundo da economia e
dos negócios no âmbito internacional. Voltamos assim, nessa matéria, aos
idos da revolução industrial, que adotou o modelo máquina para imprimir níveis
de eficiência e produtividade econômica à administração das organizações
humanas. O modelo máquina, adotado na primeira metade do século XX, volta
hoje muito mais sofisticado, como resultado natural do desenvolvimento
exponencial das ciências da informação e da comunicação. A lógica
econômica e mercadológica, no entanto, é a mesma. Para medir o sucesso
relativo dos países, das comunidades e das organizações sociais, incluindo a
escola e a universidade, a disciplina associada que tem merecido apoio
preferencial e financiamento generoso de governos e organismos financeiros é a
avaliação, destinada a medir a eficiência, a produtividade e a capacidade
competitiva das pessoas e instituições. As receitas dessas práticas de
gestão educacional são influenciadas significativamente pelo espírito
competitivo da nova economia global. Essas práticas, por sua vez,
alimentam e realimentam o modelo mercadológico da globalização e, ao fazê-lo,
favorecem aqueles países e instituições que impõem as regras do jogo em função
de seus interesse econômicos e comerciais e suas aspirações políticas.
Existe hoje uma crescente consciência internacional de que os incentivos
associados à adoção da avaliação favorece as escolas e estudantes economicamente
mais favorecidos às custas das escolas e estudantes menos favorecidos.
Associado a esses fatos, é importante observar que em alguns países europeus e
nos Estados Unidos cresce o movimento que questiona a validade e a relevância
dos processos de avaliação atualmente existentes, diante da evidência de que o
processo é seletivo e muitas vezes dificulta a consecução da eqüidade na
prestação de serviços sociais e educacionais.
Esses dados não sugerem que devemos abandonar a eficiência como critério de
desempenho na administração da educação e que devemos descuidar a avaliação
educacional. Ao contrário, a eficiência é um critério de desempenho
importante, desde que seja subsumido pela pertinência dos objetivos educacionais
e dos fins políticos e sociais da educação. Ou seja, se o objetivo é
pertinente do ponto de vista pedagógico e político, não devemos medir esforços
para persegui-lo com eficiência. E se a avaliação for concebida com essa
orientação intelectual, ela há de desempenhar um papel importante para promover
a melhoria da qualidade educacional, medir a pertinência das políticas e
práticas administrativas e pedagógicas e incentivar o compromisso político dos
participantes das instituições e sistemas de ensino.
Sobre o estudo da administração da educação
Na última parte desta minha intervenção, faço referência a alguns
desafios que enfrentamos hoje no estudo e na prática da administração da
educação.6 Para ordenar meus comentários, examino a instituição
educacional em três dimensões ou níveis analíticos – pedagógico, organizacional
e político. O nível pedagógico é de natureza técnica e refere-se aos
processos de ensino e aprendizagem. O nível organizacional ou burocrático
refere-se à estrutura e funcionamento da institutiçao educacional. O nível
político refere-se às relações entre a escola e o entorno em que ela funciona
com suas forças econômicas, políticas e culturais. No cotidiano da escola,
os educadores – professores, supervisores, avaliadores, técnicos de ensino,
administradores – tem de ver com os tres aspectos – o pedagógico, o
organizacional e o político. Um modo de estudar o papel da
administração da educação e as funções do administrador educacional é então
examinar os desafios que enfrentamos nessas três dimensões. Podemos assim
pensar na administração como prática pedagógica, como prática
organizacional e como prática política.
A administração da educação como prática
pedagógica
Comecemos pela centralidade da escola e da universidade e pela centralidade
do que nelas ocorre, do que nelas fazemos no dia a dia. Observamos aí que
no final do século cresce a pressão pela mudança de paradigma pedagógico.
O tradicional paradigma do ensinar está cedendo crescente espaço ao paradigma do
aprender. Ensinar é próprio da orientação pedagógica baseada na psicologia
comportamental da aprendizagem que dominou a prática educacional do Ocidente
durante todo o século XX. Já o aprender fundamenta-se na psicologia
construtivista e em novas concepções sociológicas sobre a aprendizagem, a
inteligência e o conhecimento humano. Hoje sabemos que o conhecimento é um
fenômeno intimamente ligado às pessoas que aprendem e ao contexto em que
elas aprendem. Hoje sabemos também que pessoas de diferentes culturas
aprendem de maneira diferente. Ou seja, aprender é um fenômeno social e
cultural. Também se consolidam novas perspectivas sobre o que é importante
aprender, o que é relevante para as pessoas e o que é pertinente para a
comunidade em que vivem. A ênfase já não é mais na transmissão de
informações e conhecimentos e sim no aprender a utilizar o conhecimento, a
aprender a conhecer, aprender a aprender. Quanto ao contexto da
aprendizagem, cresce a importância da aprendizagem ativa, do aprender
fazendo. A preocupação com o trabalho individualizado e a competição, que
enfatiza a dimensão individual da existência humana, está cedendo espaço ao
aprender em parceria, à aprendizagem cooperativa, interativa, aquela que
enfatiza a dimensão social da existência humana.
Estas mudanças vem exigindo redefinições na política educacional e na ação
pedagógica da escola. Impõe-se o desenvolvimento de conteúdos curriculares
relevantes para os estudantes e programas funcionais para as suas perspectivas
de vida na sociedade pós-industrial. Impõe-se também a adoção de uma
tecnologia de aprendizagem que favoreça a interdisciplinariedade e a
integralidade do conhecimento humano e que incentive o desenvolvimento do
pensamento crítico e criativo. De novo, trata-se de uma pedagogia centrada
no aprender, da mesma forma que o desempenho profissional está cada vez mais
relacionado com a capacidade de aprendizagem permanente do trabalhador.
Por sua vez, essa capacidade de aprendizagem está diretamente relacionada com o
saber ler, saber lógica, saber matemática e saber interagir conscientemente com
sua comunidade e a sociedade em geral.
As implicações desses desenvolvimentos pedagógicos para o educador e o
dirigente da educação e para a sua formação profisisonal são óbvias. O
professor não é mais aquele que sabe tudo, aquele especialista que transmite
informações e conteúdos. Sua função principal é a de orientar e apoiar o
processo de aprendizagem. O administrador escolar não é mais o
profissional preocupado com a ordem, a disciplina, os horários, os formulários e
as exigências burocráticas. Ele é o lider intelectual responsável pela
coordenação do projeto pedagógico da escola, facilitando o processo coletivo de
aprendizagem, vale dizer, o processo solidário de construção do conhecimento
humano. Minha hopótese é que a capacidade do educador e do administrador
educacional para cumprir essas funções está diretamente relacionada com sua
capacidade de aprendizagem permanente. Dito isso, nunca é demais reiterar
que o estudante é o ator principal na escola. Ele é o protagonista de seu
processo desenvolvimento. A funçao do professor e do administrador
educacional é a de facilitar esse processo de desenvolvimento humano.
A administração da educação como prática
organizacional
A segunda dimensão da administração da educação é de natureza organizacional
e burocrática. Nessa dimensão, a função da administração é atender às
necessidades estruturais e burocráticas das instituições educacionais. Na
realidade, a escola e a universidade são burocracias sui generis, definidas em
função de seus objetivos educacionais específicos e que requerem uma perspectiva
de organização e gestão concebida em função dessa especificidade.
Existe vasta evidência que as estruturas organizacionais e práticas
administrativas adotadas tradicionalmente em nossas escolas não produzem os
resultados educacionais que esperam os professores, pais e alunos. Há
indicações que a rotina e a monotonia da atividade educacional produzem uma
espécie de paralisia organizacional que muitas vezes isola a escola da
participação da família, dos pais e membros da comunidade. Em
conseqüência, o atual sistema de organização e gestão é incapaz de buscar
soluções efetivas para os problemas da educação. Quais são as críticas
mais comuns? Para muitos observadores, a escola é tão burocratizada
que paralisa a criatividade, o julgamento profissional e a inovação. As
estruturas organizacionais e administrativas muitas vezes distorcionam o
processo educacional e dificultam a aprendizagem, ao invés de facilitá-la e
incentivá-la.
De acordo com esses fatos, a burocracia escolar e a gestão organizacional não
são consistentes com os valores e objetivos maiores da educação. Há
evidências de que a burocracia escolar como forma de operação não presta a
devida atenção ao conteúdo susbstantivo e à infraestrutura tecnológica da
aprendizagem. Por outro lado, a estrutura organizacional das escolas não é
suficientemente flexível para atender às necessidades dos estudantes.
Finalmente, a rigidez da burocracia escolar inibe a participação dos pais e
membros da comunidade na definição dos destinos da escola e na sua organização e
gestão. O equacionamento desse problema é fundamental para poder enfrentar
efetivamente as necessidades educacionais decorrentes das transformações do
mundo moderno. Há desenvolvimentos promissores nos círculos educacionais
de vanguarda, em que os princípios e práticas administrivas tradicionais estão
cedendo espaço a formas mais ativas e auto-gestionárias para governar os
sistemas educacionais. Da mesma forma, as tradicionais estruturas
organizacionais hierárquicas e centralizadas adotadas na educação estão dando
lugar a sistemas mais descentralizados, com novos desenhos organizacionais para
facilitar uma gestão escolar mais horizontal, mais participativa, mais
democrática.
Essas mudanças têm profundas conseqüências para os educadores e
administradores educacionais. Hoje as relações de autoridade nas escolas e
universidades são mais flexíveis, de modo que a liderança do educador está mais
relacionada com sua competência do que com sua titulação profissional. O
dirigente não age isoladamente; ao contrário, para ser efetivo, necessita
desenvolver parcerias e trabalhar cooperativamente. Como líder intelectual, a
função principal do dirigente educacional é desenvolver um clima organizacional
propício para a aprendizagem e a construção do conhecimento.
A administração da educação como prática
política
A terceira dimensão da administração da educação é de natureza política e,
como tal, refere-se às interfaces da escola com seu entorno externo de caráter
econômico, político e cultural. Nessa dimensão, a administração presta
atenção prioritária a sua capacidade de resposta às necessidades e aspirações da
comunidade e da sociedade em geral.
Analistas do nivel político-institucional argumentam que os enfoques
organizacional e pedagógico de administração separaram as escolas da comunidade
e da sociedade. Isso significa que pais e membros da comunidade não tem
tido participação efetiva no processo decisório relacionado com a administração
das escolas. Existe uma extensa literatura que sugere que uma das funções
principais da burocracia é "proteger" a escola do seu entorno, constituído pelas
famílias, políticos e membros das organizações da comunidade local. Para
reverter esse quadro, muitos pensadores pregam o desenvolvimento de um sistema
escolar decididamente influenciado pelas forças políticas e sociais, o qual
aumentaria substancialmente a presença da cidadania na educação, com a adoção de
formas mais participativas e democráticas de gestão. Entre os elementos
que caracterizam uma administração dessa natureza estão: a voz da cidadania na
administração da escola; a parceria da comunidade na prestação de serviços
escolares e sua participação efetiva na própria vida da escola.
Essas práticas aumentam as interfaces entre a família e a escola, entre a escola
e a comunidade e entre os educadores e a cidadania. O resultado desse esforço
coletivo será a crescente consolidação de verdadeiras escolas cidadãs,7
comprometidas com os ideais e os valores da comunidade local.
À guisa de conclusão
A centralidade da escola implica em centralidade da política educacional e da
administração escolar. Existem hoje novas demandas resultantes da mudança
do entorno escolar. Nesse contexto, os dirigentes educacionais deparam-se
com muitas orientações diferentes sobre como organizar e administrar as
escolas. Todos sabemos aqui que hoje os educadores enfretam muitas
pressões para pautar-se por estândares nacionais e internacionais. Há uma
crescente aceitação de que o governo da escola deve ser descentralizado e que
sua direção deve contar com Conselhos Escolares constituídos de dirigentes e
professores, pais e membros da comunidade, com a função de determinar como as
escolas devem ser organizadas e qual deve ser o conteúdo do ensino. Nessas
circunstâncias, o diretor é menos administrador e mais governante, na linha das
intervenções que ontem ouvimos por ocasião da inauguração deste Simpósio.
Todas essas práticas implicam em repensar o papel do dirigente como protagonista
pedagógico, organizacional e político da instituição
educacional. Esses fatos sugerem um esforço renovado da comunidade
acadêmica e das entidades de educadores como a ANPAE, a ANPEd e outras
sociedades profissionais, com o objetivo de construir novos caminhos para o
estudo e a prática da administração da educação. Caminhos que sejam
eficientes sim, mas que acima de tudo sejam pertinentes, que preservem e
enriqueçam a identidade cultural, que propiciem o desenvolvimento de condições
políticas, econômicas e pedagógicas capazes de promover níveis mais elevados de
qualidade e eqüidade na escola e na sociedade.
Referências
1. “Pouco se cria e muito se repete,” O Globo, 6 de novembro de
1999. 2. Benno Sander, "Administração da educação no Brasil: é hora da
relevância," Educação Brasileira, Brasília, Conselho de Reitores das
Universidades Brasileiras (CRUB), Ano IV, nº 9, 2º semestre, 1982; Benno Sander,
Administração da educação no Brasil: evolução do conhecimento, Fortaleza,
Edições Universidade Federal do Ceará/Associação Nacional de Política e
Administração da Educação (ANPAE), 1982. 3. Brunner José Joaquín
Brunner, “Educación Superior y Desarrollo,” La Educación, Washington, DC,
Organization of American States, Year XLIII, Numbers 132-134,
1999. 4. William Gates, Business and the Speed of
Thought, 5. Ernesto Schiefelbein, Paula Schiefelbein, Benno Sander et
al., Education in the Americas: Quality and Equity in the Globalization Process,
Washington, DC, Organization of American States, Unit for Social Development and
Education, 1998. 6. Existe uma vasta literatura sobre os desafios da
administração da educação, seu estudo e sua prática. Ao preparar estas notas,
revisei a último manual editado por Joseph Murphy e Karen Seashore Louis (ed.),
Handbook of Research on Educational Administration, San Francisco, California,
Jossey-Bass Publishers, 1999. 7. Moacir Gadotti, Escola Cidadã,
São Paulo, Cortez Editora, 1992.
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