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GESTÃO DA EDUCAÇÃO E QUALIDADE DE
VIDA
Benno Sander Professor Universitário de Educação
Este texto é uma versão revisada do capítulo III do livro Gestão
da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento, São
Paulo, Editora Autores Associados, 1995. O livro também foi publicado em
espanhol e em inglês. Uma versão prévia deste texto foi publicada em espanhol
sob o título Gestión Educativa y Calidad de Vida, La Educación, Washington,
DC, OEA, v. XXXVIII, n. 18, 1994, p. 237-264.
INTRODUÇÃO
O estudo da administração da educação fundamenta-se em diferentes
perspectivas teóricas e utiliza diferentes procedimentos analíticos. Neste
ensaio, entretanto, não se pretende apresentar um panorama completo das teorias
pedagógicas e organizacionais adotadas no estudo da administração de escolas e
universidades, nem examinar de forma exaustiva as numerosas alternativas
analíticas existentes na bibliografia especializada no campo da gestão da
educação. O trabalho limita-se à apresentação crítica de teorias organizacionais
e administrativas adotadas historicamente na educação à luz de duas tradições
filosóficas e sociológicas contrárias: (1) a tradição funcionalista do consenso,
com raízes nas teorias positivistas e evolucionistas que têm caracterizado
historicamente o pensamento científico do Ocidente; e (2) a tradição
interacionista do conflito, que se baseia nas teorias críticas e libertárias
enraizadas no marxismo, no existencialismo, no anarquismo, na fenomenologia, na
teoria crítica e na abordagem de ação humana. No contexto dos limites
gerais que tem caracterizado historicamente as duas tradições teóricas e à luz
da avaliação da nova realidade internacional na década de transição para o
século XXI, este capítulo tem por objetivo oferecer elementos para um renovado
esforço de reconstrução de perspectivas conceituais e analíticas para o estudo
da pedagogia e da administração da educação.1
O ensaio parte da premissa de que a avaliação crítica das grandes tradições
filosóficas da humanidade em função de diferentes tempos históricos e domínios
geográficos pode oferecer explicações esclarecedoras sobre a realidade
educacional e permite gerar novas percepções para a construção de perspectivas
superadoras para os estudos de gestão da educação. No âmbito econômico e
político mais amplo em que funcionam as organizações educacionais da atualidade,
este exercício de avaliação crítica e construtiva recupera, hoje, nova força
diante da importância de analisar a natureza e o alcance das
transformações sociais que ocorrem em todo o mundo desde o fim da guerra fria. À
luz da recente distensão internacional, esta avaliação se impõe diante da
necessidade de analisar a experiência historicamente acumulada no Leste e no
Oeste, bem como no Norte e no Sul, com vistas a estabelecer novos planos de ação
coletiva para construir um mundo livre e eqüitativo, comprometido com a promoção
do desenvolvimento humano sustentável e da qualidade de vida. Estas preocupações
estão presentes em recentes esforços teóricos no campo da administração da
educação.
ANTECEDENTES EPISTEMOLÓGICOS
Na presente análise, o conceito de qualidade de vida humana é o
critério-chave para guiar o estudo das organizações sociais e da educação. A
controvérsia em torno do conceito de qualidade de vida humana nos círculos
acadêmicos de todo o mundo nos remete à filosofia da ciência, à política do
conhecimento, ao modelo de sociedade e ao conceito de ser humano como sujeito
individual e social. Na realidade, a definição de qualidade de vida humana
responde a uma antropologia filosófica concebida a partir dos valores éticos e
das opções políticas da cidadania na sua atividade diária. Por outro lado, como
estamos historicamente situados na América Latina e politicamente comprometidos
com a construção de seu presente e seu futuro, a definição de qualidade de vida
humana deve refletir também uma filosofia social elaborada a partir da
perspectiva política e cultural da América Latina no contexto global da nova
realidade econômica e política internacional.
A partir de tradições filosóficas e compromissos praxiológicos diferentes, é
possível pensar em diferentes perspectivas ou dimensões de qualidade de vida
humana, como: qualidade formal e qualidade política; qualidade instrumental e
qualidade substantiva; qualidade individual e qualidade coletiva. Segundo Demo,
"qualidade formal refere-se a instrumentos e a métodos, enquanto que qualidade
política, a finalidades e conteúdos".2 Na mesma linha, é possível associar a
qualidade instrumental com as condições técnicas e materiais de vida e
identificar a qualidade substantiva com o nivel de excelência do conteúdo
político da vida humana que a cidadania constrói historicamente no seu próprio
cenário cultural. Finalmente, qualidade individual refere-se a bem pessoal,
enquanto que qualidade coletiva relaciona-se com o bem comum. A qualidade
individual dá prioridade à liberdade; a qualidade coletiva, à eqüidade.3 Se
pensamos interacionalmente, os dois componentes das várias dicotomias de
qualidade de vida, ainda que distinguíveis, não são excludentes. São, pelo
contrário, dimensões dialeticamente articuladas de um conceito abrangente de
qualidade de vida, em que as dimensões formal, instrumental e individual são
subsumidas, respectivamente, pelas dimensões política, substantiva e coletiva. É
nesse sentido que, no presente trabalho, adota-se um conceito compreensivo
e superador de qualidade de vida humana, de tal forma que qualidade política
abranja qualidade formal; que qualidade substantiva inclua qualidade
instrumental; e que a qualidade coletiva esteja estreitamente associada à
qualidade individual.
Para os objetivos do presente ensaio, esse conceito superador de qualidade de
vida fundamenta-se na articulação correta dos valores de liberdade e eqüidade
tal como são construídos e reconstruídos historica-mente através da participação
cidadã. Esta definição implica uma filosofia social, segundo a qual o ser humano
se integra na sociedade, com a missão de participar na sua organização e
funcionamento, a partir de um conceito de bem comum historicamente construído. O
primeiro valor do bem comum sobre o qual se baseia a qualidade de vida é a
liberdade, que implica o desenvolvimento da subjetividade e da personalidade
humana livre. No entanto, o exercício da liberdade individual está socialmente
vinculado, introduzindo o segundo valor em que se baseia a qualidade de vida
humana: a eqüidade. É nesse sentido que a construção de uma sociedade livre e
eqüitativa capaz de promover efetivamente a qualidade de vida humana implica,
por parte da cidadania, a articulação correta entre o interesse individual e o
compromisso social.
O conceito de qualidade de vida humana está estreitamente rela-cionado com o
de desenvolvimento humano sustentável, elaborado e reelaborado em estudos
realizados desde 1990 por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD). Na realidade, "o paradigma do desenvolvimento humano
sustentável valoriza a vida humana em si mesma."4 A qualidade de vida somente
existe em termos concretos quando os direitos humanos são reconhecidos
igualitariamente para todos e quando as necessidades vitais dos seres humanos
são atendidas uni-versalmente. Assim definidos, os conceitos de qualidade de
vida e de desenvolvimento humano sustentável refletem uma posição ética
comprometida com a construção de um mundo livre e eqüitativo; com a promoção do
progresso econômico e social aliado à preservação ecológica e à regeneração da
natureza; com a universalização de oportunidades educacionais e culturais e a
correspondente oferta de empregos; com a atenção prioritária aos pobres e
excluídos por razões de raça, gênero, religião e origem social; e com a
participação da cidadania nas decisões referentes aos destinos de sua comunidade
e da civilização humana como um todo.
À luz do conceito de qualidade de vida humana é possível definir a qualidade
de educação sob diferentes perspectivas epistemológicas e distintas dimensões
analíticas e praxiológicas. De fato, no setor educacional existe preocupação com
a qualidade dos aspectos políticos e culturais da ação pedagógica --ou seja, com
a dimensão substantiva da educação--, e com a qualidade dos processos,
procedimentos e métodos educativos-- isto é, com a dimensão instrumental da
educação. No sistema de ensino também existe preocupação com a qualidade de seus
aspectos extrínsecos relacionados com o contexto político e a economia e com a
qualidade dos aspectos intrínsecos referidos à identidade cultural e à ação
pedagógica específica das instituições escolares e universitárias. Também existe
preocupação com a qualidade individual que dá prioridade à subjetividade e à
autonomia criadora dos participantes do sistema educacional, e com a qualidade
coletiva que dá prioridade à eqüidade na construção e distribuição dos
conhecimentos socialmente válidos. Finalmente, há preocupação com a qualidade
dos diferentes tipos de insumos, de processos e de resultados da ação
educacional. Ainda que analiticamente distinguíveis, as várias perspectivas ou
dimensões de qualidade da educação não são exclusivas; pelo contrário, são
perspectivas ou dimensões dialéticamente articuladas de um conceito abrangente e
superador de qualidade de educação. Nesse sentido, adota-se aqui um conceito
compreensivo de qualidade de educação para todos que abranja a totalidade da
ação educacional como processo político-cultural e técnico- pedagógico de
formação social e de construção e distribuição de conhecimentos científicos e
tecnológicos socialmente significativos e relevantes para a cidadania.
A estratégia por excelência para a promoção da qualidade de vida humana e de
educação é a participação cidadã, comprometida com a conquista da democracia
política e a prática efetiva da democracia social, capaz de superar as
desigualdades econômicas, políticas e culturais que ameaçam o desenvolvimento
humano e a segurança coletiva. Esta estratégia fundamenta-se na premissa de que
a participação democrática favorece a definição justa dos espaços de
contribuição e benefício individual do esforço humano coletivo. A estratégia
baseia-se também na convicção de que a participação democrática favorece a
solidariedade e o exercício efetivo da justiça social. Além disso, a
participação democrática favorece a conscientização política e a organização
social para a autogestão da comunidade e a preservação e regeneração da
natureza. Finalmente, a participação democrática viabiliza a adoção de opções
políticas relevantes e significativas para os cidadãos comprometidos com a
construção da civilização humana à luz da articulação correta dos valores de
liberdade e eqüidade. Na educação, que tem por função construir e distribuir o
conhecimento, o argumento é de que a participação cidadã possibilita a
construção livre e solidária do conhecimento socialmente válido e favorece a sua
distribuição eqüitativa e efetiva.
À luz desses antecedentes, é possível estudar um dos temas centrais da
bibliografia pedagógica especializada produzida e utilizada por pensadores,
educadores e cientistas de diferentes correntes filosóficas e sociológicas: o da
gestão da educação como processo mediador. De fato, a revisão histórica das
perspectivas conceituais e analíticas de administração da educação permite
examinar o papel da mediação administrativa5 nas escolas e nas universidades,
avaliar a natureza da qualidade de vida e de educação e valorar a aplicação dos
conceitos de liberdade, eqüidade, participação e democracia na gestão da
educação. Segue uma análise da gestão da educação como processo mediador à luz
da tradição funcionalista e da sua antítese interacionista na educação e
nas ciências sociais.
TRADIÇÃO FUNCIONALISTA DE ADMINISTRAÇÃO DA
EDUCAÇÃO
Na história universal do pensamento científico, a tradição funcionalista
reúne as teorias positivistas e evolucionistas do consenso nas ciências sociais
e na pedagogia.6 Na gestão da educação, a tradição funcionalista se consolida
historicamente nas teorias clássicas e psicossociológicas de organização e
administração, que se ocupam, primordialmente, da ordem, do equilíbrio, da
harmonia e da integração, numa palavra, do consenso derivado de princípios
gerais preestabelecidos. Esses elementos sugerem um conceito formal de qualidade
de vida e de educação, segundo o qual os cidadãos se preocupam com a ordem
estrutural, o comportamento funcional e a integração social.
Os teóricos da administração funcionalista foram buscar seus conceitos
positivistas e evolucionistas originais em Comte, Spencer, Pareto e Durkheim.7
Mais recentemente, recorreram a Lewin, Homans, Merton e Parsons.8 Desde o
princípio, o movimento teórico na administração da educação ocidental, foi
também influenciado significativamente pelos positivistas lógicos que fundaram,
em 1923, o "Círculo de Viena."9 A influência do empirismo antimetafísico e
matemático do neopositivismo do "Círculo de Viena" foi particularmente decisiva
na ciência social e na educação dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, além da
Alemanha, Áustria e outros países da Europa continental. Nos Estados Unidos, com
repercussões posteriores na América Latina e em outras partes do mundo, os
psicólogos e psicólogos sociais desempenharam um papel importante na introdução
e difusão dos conceitos positivistas e comportamentalistas que informaram a
perspectiva tradicional de administração da educação.10 Outros introdutores
importantes dos conceitos positivistas e funcionalistas na administração da
educação no Ocidente foram os protagonistas de teorias gerais de administração,
como Barnard e Simon, e estudiosos preparados em ciências, como Griffiths.11
Esses e outros representantes influentes do positivismo filosófico e do
funcionalismo sociológico na educação e nas ciências sociais são protagonistas
de teorias administrativas caracterizadas por modelos hipotético-dedutivos, pela
precisão, pela lógica simbólica, pelo comportamento funcional e pela pesquisa
empírica apoiada em extensa utilização dos métodos das ciências naturais.
Essas teorias de administração objetivam alcançar a ordem e o progresso
social, a integração e a coesão social, a satisfação das neces-sidades sociais e
a reprodução estrutural e cultural da sociedade. Para atingir esses objetivos de
maneira eficiente e eficaz, as teorias positivistas de organização e
administração enfatizam a ordem e o equilíbrio, o realismo e a racionalidade.
Essas teorias administrativas constituem o chamado "paradigma tradicional" que
tem prevalecido na pesquisa e na prática da gestão da educação ocidental durante
mais de meio século.
A bibliografia pedagógica do Ocidente registra muitos modelos teóricos e
estudos empíricos sobre a estrutura e o funcionamento dos sistemas educacionais
e das organizações sociais em geral. Vários esforços teóricos, entre os quais se
destaca o modelo psicossociológico de Getzels e Guba,12 reduzem o comportamento
organizacional à inter-relação de três dimensões: dimensão institucional,
dimensão individual e dimensão grupal. Nesse contexto, a administração cumpre um
papel mediador entre as três dimensões, determinando significativamente a
natureza do comportamento organizacional em função do tipo de mediação
administrativa adotado. A prática administrativa permite enfatizar
diferentemente as três dimensões, dando origem, como resultado, às três
seguintes construções de gestão da educação, com seus respectivos tipos de
mediação e seus correspondentes critérios predominantes de desempenho
administrativo: (1) administração burocrática, em que a mediação é normativa,
pois enfatiza a dimensão institucional do comportamento organizacional; (2)
administração idiossincrática, em que a mediação é personalista, pois enfatiza a
dimensão individual; e (3) administração integradora, em que a mediação é
ambivalente, pois enfatiza simultânea ou alternativamente, a dimensão
institucional e/ou a dimensão individual. À luz do trabalho de Getzels e seus
associados e intérpretes, apresenta-se, a seguir, uma análise da natureza
das três construções funcionalistas de administração, com seus respectivos tipos
de mediação, os objetivos que perseguem e os seus critérios administrativos
predominantes.13
ADMINISTRAÇÃO BUROCRÁTICA
Como construção heurística e praxiológica de gestão, a administração
burocrática é uma derivação conceitual das teorias sociológicas da escola
clássica de administração expostas por Taylor, Fayol e Weber, no início do
século XX, por ocasião da consolidação da Revolução Industrial.14 Aplicada à
gestão da educação, a construção burocrática (relativo à burocracia, do francês
bureaucratie; e esta de bureau, escritório, e do grego krat, poder, governo)
adquire a forma de um estilo administrativo que enfatiza a dimensão
institucional do sistema educacional e de suas escolas e universidades,
orientado, primordialmente, pelas expectativas, normas e regulamentos
burocráticos. De acordo com essa orientação, a organização educativa é
concebida, estruturalmente, como um sistema fechado de funções ou papéis aos
quais correspondem direitos e deveres institucionais. As funções ou papéis
definem-se em termos das expectativas ou conceitos prévios que os participantes
do sistema educacional e da comunidade lhe atribuem. Em outras palavras, a
preocupação básica da administração burocrática se reduz à instituição; esta, ao
conjunto de seus papéis; e estes, as suas correspondentes expectativas
institucionais.
Assim entendida, a administração burocrática desempenha uma mediação
normativa entre as dimensões institucional e individual, adotando um
comportamento organizacional que enfatiza a regulação, a ordem hierárquica e o
progresso racional, com vistas a alcançar eficazmente os objetivos do sistema de
ensino e de suas escolas e universidades.
Nesse contexto, é possível examinar a formação e a ação do administrador
burocrático. No que se refere a sua formação profissional, o administrador
burocrático procura seu quadro teórico na sociologia das organizações, já que a
administração burocrática reflete uma análise predominantemente sociológica do
comportamento organizacional. Na sua atividade profissional, o administrador
burocrático se preocupa com o cumprimento das leis e das normas que regem o
funcionamento da instituição educacional e com a defesa de seus interesses como
sistema, desconsiderando a importância de seus participantes como pessoas. A
preocupação do administrador burocrático é criar um clima organizacional que
favoreça a eficácia do sistema para atingir os seus objetivos, relegando a
segundo plano a eficiência individual dos participantes.
A eficácia converte-se, assim, no critério dominante de desempenho
administrativo da administração burocrática. Como critério de desempenho
administrativo, a preocupação central da eficácia é alcançar os objetivos
institucionais. Se o sistema educacional adota a gestão burocrática como seu
estilo administrativo, a eficácia institucional terá precedência sobre a
eficiência individual e, conseqüentemente, a eficiência dos participantes só
será alentada em função do eficaz alcance dos objetivos estabelecidos.
ADMINISTRAÇÃO IDIOSSINCRÁTICA
Como construção heurística e praxiológica de gestão, a administração
idiossincrática é uma derivação conceitual das teorias psicológicas de
administração, associadas ao movimento das relações humanas que Mayo,
Roethlisberger e Dickson desenvolveram nos Estados Unidos nos tempos da Grande
Depressão que atingiu o mundo no final da década de vinte.15 Aplicada à gestão
da educação, a construção idiossincrática (relativo à idiossincrasia, do grego
idiós, próprio, especial, individual; e synkrasis, temperamento, índole) adquire
a forma de um estilo administrativo que enfatiza a dimensão individual do
sistema educacional e se dedica, primordialmente, à satisfação das necessidades
e disposições pessoais de seus participantes. Nessa orientação, concebe-se a
organização educacional como um sistema parcialmente aberto, preocupado com o
desen- volvimento de um clima organizacional que facilita o crescimento
subjetivo e intersubjetivo. Cada pessoa é considerada como um indivíduo único
com personalidade distinta, definida por um conjunto próprio de necessidades e
disposições que se refletem na sua conduta. Em outras palavras, a preocupação da
administração idiossincrática se reduz aos indivíduos, cada um com
personalidade única, definida por um conjunto de necessidades e disposições
pessoais.
Assim concebida, a administração idiossincrática desempenha uma mediação
personalista entre as dimensões institucional e individual e adota um tipo de
comportamento organizacional que enfatiza a subjetividade e as relações humanas
para a satisfação e auto-atualização dos participantes do sistema educacional e
de suas escolas e universidades.
Com relação aos fundamentos teóricos, o administrador idiossincrático recorre
à psicologia, já que a administração idiossincrática reflete,
predo-minantemente, uma análise psicológica do comportamento organizacional. Na
sua prática cotidiana, o administrador idiossincrático se ocupa,
primor-dialmente, das características individuais dos participantes como
pessoas, relegando a segundo plano a instituição educacional como sistema. Sua
preocupação é criar um clima organizacional que favoreça a eficiência daqueles
que participam do sistema educacional, prestando pouca atenção à eficácia
institucional na consecução dos objetivos pedagógicos.
A eficiência passa a ser então o critério de desempenho administrativo
predominante da administração idiossincrática. Como critério de desem-penho
administrativo, a eficiência reflete-se no grau de satisfação individual,
tendo como valor supremo a produtividade humana. Esta definição, influenciada
pela psicologia industrial, reflete uma preocupação explícita com o aspecto
psicológico próprio da dimensão individual do sistema educacional. Se o sistema
educacional adota a gestão idiossincrática como seu estilo administrativo, a
eficiência individual terá precedência sobre a eficácia institucional.
ADMINISTRAÇÃO INTEGRADORA
Como construção heurística e praxiológica de gestão, a administração
integradora é uma derivação conceitual das teorias psicossociológicas de
administração formuladas por Barnard e Simon e desenvolvidas mais tarde por
Argyris, McGregor, Halpin, Griffiths, Getzels e outros intérpretes de orientação
comportamental.16 Aplicada à gestão da educação, a construção integradora (que
faz integração, do latim integratione, ação de formar um todo com as partes que
se complementam) se ocupa simultânea ou alternativamente dos aspectos
sociológicos e psicológicos do sistema educacional e de suas escolas e
universidades. A administração integradora desempenha um papel de integração
entre a instituição e o indivíduo, entre papel e personalidade, entre
expectativas burocráticas e aspirações idiossincráticas. De acordo com essa
perspectiva de natureza inter-disciplinar, a instituição educacional é concebida
como um sistema aberto, o que lhe permite superar tanto o reducionismo
sociológico da adm-inistração burocrática como o reducionismo psicológico da
administração idiossincrática.
Assim concebida, a administração integradora desempenha uma mediação
ambivalente entre as dimensões institucional e individual, enfatizando, ora as
expectativas burocráticas, ora as necessidades e dispo-sições pessoais,
dependendo das circunstâncias ou situações específicas em que ocorrem as ações
administrativas. As circunstâncias ou situações em que se realiza a mediação
administrativa geralmente estão associadas ao comportamento dos grupos de
trabalho, ou seja, à dimensão grupal do sistema educacional e de suas escolas e
universidades. De fato, a ação organizada dos grupos de trabalho facilita a
mediação entre as expectativas burocráticas e as motivações pessoais e, em
situações concretas, pode propiciar a combinação do papel institucional com a
personalidade individual.
Quanto aos antecedentes teóricos, o administrador da integração encontra seu
quadro referencial na disciplina híbrida da psicologia social, já que a
administração integradora reflete uma análise psicossociológica do comportamento
organizacional. No desempenho de suas atividades cotidianas, o administrador da
integração procura responder, simultânea ou alternativamente, às expectativas
institucionais e/ou às necessidades e disposições individuais. Sua preocupação é
criar um clima organizacional pragmático que conduz à efetividade da ação
administrativa, através do equilíbrio entre a eficácia institucional e a
eficiência individual.
A efetividade passa a ser então o critério de desempenho predo-minante da
administração integradora. Como critério de desempenho administrativo, a
efetividade se relaciona pragmaticamente com o grau de congruência entre as
expectativas institucionais e as necessidades e disposições individuais num
determinado conjunto de situações. Para os protagonistas e adeptos da
administração integradora, a efetividade pragmática em função dos objetivos
estabelecidos tem precedência tanto sobre a eficácia institucional como sobre a
eficiência individual.
OS LIMITES DAS CONSTRUÇÕES FUNCIONALISTAS
Em resumo, as três construções funcionalistas de administração são diferentes
quanto a seus tipos de mediação e seus critérios predominantes de desempenho
administrativo. São diferentes, também, quanto à postura de seus protagonistas e
adeptos a respeito da condição humana na sociedade, sua definição de qualidade
de vida e de educação e seus conceitos de liberdade, eqüidade, participação e
democracia.
A administração burocrática desempenha uma mediação normativa e enfatiza a
eficácia dos atos administrativos. Ou seja, a construção burocrática é de
tendência autoritária e legalista e, como tal, limita o espaço para a promoção
da liberdade individual e da eqüidade social. A preocupação com a eficácia
institucional, a ordem hierárquica e o progresso material implica um conceito de
qualidade de vida e de educação de natureza extrínseca e formal e revela um
compromisso com a reprodução estrutural da sociedade e suas organizações. O
culto à tecnologia e à qualidade instrumental é característica central da
perspectiva burocrática. Seu caráter normativo e hierárquico dificulta a prática
da participação cidadã na sociedade e em suas organizações. Embora a
administração burocrática favoreça a adoção formal da democracia política, ela
inibe a prática efetiva da democracia social capaz de enfrentar as desigualdades
estruturais na sociedade, na escola e na universidade.
A administração idiossincrática desempenha uma mediação personalista e
enfatiza a eficiência individual. Ou seja, a construção idiossincrática tende a
ser individualista e, como tal, reduz o espaço para a promoção da eqüidade e o
exercício da democracia social. A preocupação com a competitividade individual e
a busca da satisfação pessoal supõe um conceito de qualidade de vida e de
educação de natureza individualista e desenvolvimentista, preocupando-se mais
com o crescimento individual do que com a solidariedade e a coesão social. Essas
características revelam que a administração idiossincrática não favorece a
participação coletiva na sociedade e na educação, dificultando a construção de
um sistema social preocupado com a busca do bem comum.
A administração integradora é situacionista e desempenha uma mediação
ambivalente, enfatizando a efetividade pragmática da prática administrativa. Do
ponto de vista funcional, a construção integradora de administração adota um
comportamento tático, tentando superar tanto o individualismo como o
autoritarismo burocrático dos modelos tradicionais de administração. A
perspectiva integradora favorece a participação dos grupos organizados nas
decisões que afetam a vida e os níveis de liberdade e eqüidade na sociedade e na
educação. Filosoficamente, a construção integradora se identifica com o
liberalismo social, adotado hoje pelas forças liberais abertas à problemática
social.
Devido à herança positivista da sociedade latino-americana e caribenha, as
perspectivas funcionalistas de administração pública e gestão da educação
prevalecentes na Europa e na América do Norte tem sido extensamente adotadas no
Hemisfério. O fato é que os estudos sobre a evolução da teoria administrativa na
educação latino-americana proporcionam elementos valiosos para analisar a
utilização dos conceitos e práticas positivistas e funcionalistas na
administração da educação.17 Foi precisamente sob o domínio do positivismo na
história latino-americana que se efetuaram os estudos mais influentes de gestão
da educação e de administração pública e empresarial. A avaliação desses estudos
demonstra que, desde os anos trinta, seus autores procuraram os elementos
conceituais e metodológicos nas teorias clássicas e psicossociológicas de
administração concebidas na Europa e nos Estados Unidos. O fayolismo e o
weberianismo, o taylorismo e o fordismo, o desenvolvimentismo e o
instrumentalismo pragmático, o comportamentalismo e o sistemismo tiveram uma
influência decisiva na teoria e na prática da administração da educação latino-
americana. Essa influência é evidente nos textos mais conhecidos de
administração escolar escritos, desde a década de trinta até os anos setenta,
pelos protagonistas históricos da administração da educação latino-americana,
demonstrando que a tradição positivista teve um impacto profundo na educação e
nas ciência sociais aplicadas na América Latina. Em grande parte, as raízes
históricas dessa orientação se encontram nos Estados Unidos e na Europa,
especialmente na França, Espanha, Portugal e, em menor escala, na Inglaterra e
na Alemanha.
Com o questionamento dos fundamentos positivistas e funcionalistas das
teorias tradicionais de educação no hemisfério ocidental, durante as últimas
décadas surgiram perspectivas conceituais e analíticas alternativas para o
estudo da educação e sua administração, com se verá mais adiante. Na América
Latina essa efervescência intelectual é evidente em recentes pesquisas e
publicações científicas, nos programas de pós-graduação em educação e ciências
sociais e nas iniciativas das associações profissionais de educação.18
As críticas dirigidas à perspectiva funcionalista de administração atacam
principalmente suas bases positivistas.19 Devido ao compromisso do positivismo
com a manutenção estrutural e cultural da sociedade e da educação, a
administração funcionalista do consenso se caracteriza pela sua limitada
capacidade crítica. Em conseqüência, os estudos de administração baseados na
tradição positivista se ocupam, predominantemente, da descrição dos fenômenos
organizacionais e administrativos, sem adotar uma posição crítica. Outrossim,
devido aos princípios racionalistas e objetivistas subjacentes, as construções
funcionalistas de administração têm sido incapazes de definir adequadamente o
poder determinador da intencio-nalidade humana no sistema educacional e em suas
escolas e universidades. Por outro lado, os fenômenos do poder e do conflito que
ocorrem, diariamente, na escola e na sociedade recebem um tratamento tático,
desprovido de perspectiva histórica e explicação política. As críticas à
neutralidade científica e à redução dos conceitos teóricos a variáveis
operacionais e quantificáveis tampouco tiveram explicações satisfatórias por
parte dos teóricos da administração tradicional. Finalmente, do ponto de vista
metodológico, a orientação empírica que caracteriza os estudos da administração
tradicional exige uma reavaliação cuidadosa, em vista de que os conceitos
positivistas nos quais se apóiam não conseguiram explicar a dicotomia que existe
entre teoria e observação.
Contudo, apesar das limitações reveladas pela crítica moderna, o positivismo
tem desempenhado um papel importante na história da filosofia da ciência e da
educação. Suppe reconhece sua importância quando afirma que "hoje o positivismo
pertence verdadeiramente à história da filosofia da ciência, e sua influência é
aquela de um movimento historicamente importante na preparação do terreno de uma
filosofia contemporânea da ciência muito modificada.”20
À semelhança do positivismo, o funcionalismo também desempenhou um papel
historicamente importante na ciência social do Ocidente. A atual reavaliação
crítica das limitações e potencialidades do funcionalismo oferece novos
elementos para a construção do conhecimento científico. Na realidade, existe
hoje no hemisfério ocidental um forte movimento neofuncionalista nas ciências
sociais, como pode deduzir-se, por exemplo, do livro, Neofunctionalism, editado
por Alexander, da Associação Ameri-cana de Sociologia.21 A obra reflete a
efervescência do debate teórico contemporâneo entre sociólogos americanos e
europeus dedicados à crítica do funcionalismo sociológico e à concepção de
alternativas superadoras. Partindo da compreensão dos limites da contribuição
histórica do funcionalismo e numa tentativa de superar as limitações da corrente
funcionalista ortodoxa, o neofuncionalismo promete ocupar um espaço destacado na
sociologia ocidental. O neofuncionalismo pode representar, de fato, uma nova
ruptura epistemológica na tradição sociológica do Ocidente, incorporando novos
elementos no seu quadro teórico e revisando os conceitos existentes. Nesse
sentido, observa-se que existem hoje renovados esforços teóricos, baseados na
intersecção de conceitos e idéias de diferentes orientações epistemológicas,
porém articuladas de tal maneira que preservem a orientação funcionalista
essencial e a inspiração positivista que lhe dá sustentação. De fato, os
protagonistas do movimento neofuncionalista procuram desenvolver a crítica da
sociedade moderna e de suas organizações, utilizando seletivamente contribuições
das teorias do conflito e incorporando elementos crítico-dialéticos em seus
modelos liberais de análise sociológica e organizacional. Não obstante, é
importante assinalar que, apesar das concessões circunstanciais e instrumentais
do neofuncionalismo, em nenhum momento mudou o ponto de vista filosófico e o
compromisso político com os ideais liberais. Esse compromisso se reforça diante
da ofensiva neoliberal resultante da declinação do socialismo real no Leste
europeu.
No campo específico da educação, as teorias enraizadas no positivismo e no
funcionalismo ocupam também um lugar historicamente importante. Como na
sociologia, também na pedagogia e na gestão da educação, as teorias de
orientação positivista e funcionalista passam por um processo de desconstrução e
reconstrução científica. Sua influência futura depende da capacidade de
renovação dos seus protagonistas e seguidores no contexto da nova realidade
econômica e política internacional.22 Por outro lado, as teorias
neofuncionalistas de organização e gestão da educação necessitam competir com
perspectivas concebidas por forças progressistas compro-metidas com a
reconstrução da civilização humana a partir de diferentes concepções de ser
humano, diferentes filosofias de ciência e diferentes teorias de sociedade.
TRADIÇÃO INTERACIONISTA DE ADMINISTRAÇÃO DA
EDUCAÇÃO
Na história do pensamento científico, a tradição interacionista reúne as
teorias críticas e libertárias do conflito nas ciências sociais e na pedagogia.
As primeiras formulações de perspectivas alternativas de organização e gestão da
educação, protagonizadas pelos teóricos críticos da tradição do conflito nas
ciências sociais, estão ligadas ao questionamento dos funda-mentos positivistas
e funcionalistas da administração tradicional. Na realidade, os teóricos
críticos concebem a administração interacionista do conflito como antítese da
administração funcionalista do consenso, argumentando que as perspectivas
tradicionais de gestão não têm sido capazes de oferecer explicações suficientes
e adequadas acerca dos fenômenos do poder, da ideologia, da mudança e das
contradições que caracterizam o sistema educacional no contexto da sociedade
contem-porânea. Vinculado a esses elementos está o conceito político de
sociedade e de qualidade de vida e de educação que implica uma preocupação
fundamental com a emancipação humana e a transformação social.
Os fundamentos iniciais da administração interacionista se encontram na
economia política de Marx,23 no existencialismo de Kierkegaard e Sartre24 aliado
ao idealismo de Kant, Fichte e Hegel,25 na fenomenologia de Husserl26 e no
anarquismo de Proudhon.27 À luz dessas correntes intelectuais e de algumas
propostas progressistas de orientação liberal, como as de Dahrendorf,28 as
teorias interacionistas do conflito preocupam-se com a conscientização e a
interpretação crítica da realidade, o alcance da emancipação humana e a
transformação estrutural e cultural da escola e da sociedade. Para alcançar
esses objetivos, as teorias interacionistas de organização e administração
tendem a ser críticas, reflexivas e dialéticas.
O exame dos modos alternativos de explicar os fenômenos orga-nizacionais e
administrativos mostra que, além de iniciar suas formulações a partir da crítica
das perspectivas funcionalistas de organização e administração, geralmente
adotam orientações filosóficas explícitas. Uma análise mais detalhada das
construções teóricas alternativas revela que, ainda que cada protagonista adote
uma orientação filosófica predominante, geralmente as formulações se baseiam na
intersecção de contribuições conceituais e analíticas diferentes, como o
marxismo, o existencialismo, a fenomenologia, o anarquismo, a teoria crítica, a
nova sociologia da educação e a abordam acionalista.
Com essa variedade de fundamentos conceituais e analíticos, a bibliografia
especializada na sociologia e na pedagogia do conflito29 destaca um grande
número de novas tentativas de elaboração de teorias organizacionais e
administrativas. Algumas das novas construções enfatizam a dimensão objetiva ou
racional do comportamento organizacional, enquanto que outras concepções
teóricas favorecem a dimensão subjetiva ou não-racional. Superando o
reducionismo, tanto do ponto de vista objetivo ou estrutural como do ponto de
vista subjetivo ou individual, outros estudiosos se dedicam à concepção de
perspectivas dialógicas ou sintéticas.
Nesse contexto, é possível enunciar três construções diferentes de
administração interacionista, com seus respectivos tipos de mediação, baseadas
em três diferentes orientações epistemológicas: (1) administração
estruturalista, em que a mediação é determinista, pois enfatiza a dimensão
institucional ou objetiva do comportamento organizacional; (2) administração
interpretativa, em que a mediação é reflexiva, já que enfatiza a dimensão
individual ou subjetiva; e (3) administração dialógica, em que a mediação é
dialética enfatizando a totalidade e a contradição multi-dimensional. Em termos
práticos, cada uma das três construções interacionistas implica uma posição
correspondente acerca da escola e da condição humana na sociedade, como se
poderá ver a seguir.
ADMINISTRAÇÃO ESTRUTURALISTA
Como construção heurística e praxiológica de gestão, a administração
estruturalista é uma derivação conceitual da epistemologia materialista do
marxismo e de outras interpretações deterministas. Aplicada à educação, a
perspectiva estruturalista se baseia, primordialmente, nas interpretações
deterministas e reprodutivistas do sistema educacional e da sociedade feitas
pelos pensadores institucionais dos anos sessenta e setenta, como Althusser,
Bourdieu e Passeron, Baudelot e Establet, Bowles e Gintis.30 Tal como foi
concebida nesta análise, a administração estruturalista (do latim structura,
disposição e ordem das partes de um todo) se ocupa da ordem e do poder regulador
das diferentes partes ou dimensões do sistema educacional no contexto mais amplo
da sociedade, enfatizando o determinismo econômico por cima da ação e da
interação humana.
É importante registrar que o estruturalismo diz muito mais que sua associação
com uma ou mais epistemologias marxistas. De fato, o estruturalismo, como corpo
teórico e como método heurístico, assume muitas e variadas formas em diferentes
áreas do conhecimento e diferentes orientações epistemológicas. Contudo, mais
que apresentar uma visão geral do estruturalismo como perspectiva teórica e
método científico, no presente ensaio destaca-se somente a associação histórica
entre o estruturalismo e uma das várias epistemologias do marxismo, a de
natureza materialista e determinista.31
O defensor mais destacado de uma análise estruturalista e materialista
da obra de Marx é Althusser,32 que enfatiza as condições econômicas e as
estruturas institucionais objetivas do materialismo histórico, rejeitando a
interpretação humanista do marxismo. Sua análise estrutural da influência do
todo social sobre suas partes e vice-versa atribui à base econômica o poder
determinante na sociedade, o qual implica uma visão passiva da cultura, da
educação e da ação humana. Esse fenômeno constitui, em realidade, um desafio
importante para a gestão da educação, já que ela é chamada a desempenhar um
papel mediador entre a sociedade e a educação, entre a totalidade do sistema
educacional e suas partes constitutivas, entre a escola como instituição e seus
participantes como indivíduos. Junto com Althusser, Bourdieu também tratou de
elaborar um modelo estruturalista de análise fundamentado, principalmente, em
Durkheim e, em menor escala, em Marx e em Lévi-Strauss, visando estudar uma
ampla gama de questões sobre a relação existente entre cultura, estrutura e
educação.33 Um problema que Bourdieu não conseguiu evitar em sua análise
institucional da reprodução social e cultural é o caráter relativamente estático
e auto-regulador de seu modelo, como acontece também com o modelo determinista
de Althusser e com a visão econômica de Bowles e Gintis nos Estados Unidos.
Embora os pensadores institucionais e reprodutivistas não tenham concebido
uma teoria específica de administração da educação, seus intérpretes e
seguidores elaboraram diferentes derivações conceituais e analíticas de seus
trabalhos, visando construir uma perspectiva estruturalista de gestão da
educação. De acordo com a epistemologia determinista de Althusser, o sistema
educacional tem sido concebido como uma totalidade estrutural, com diferentes
dimensões ou práticas que refletem uma realidade caracterizada por inúmeras
contradições. Para os seguidores de Althusser, a dimensão econômica da educação
determina as demais dimensões do sistema educacional, como a cultural e a
política. Esse esquema de relações sugere que a administração da educação é
economicamente condicionada em sua função mediadora entre as diferentes
dimensões do sistema educacional. O mesmo papel regulador da economia
encontra-se também na teoria da correspondência de Bowles e Gintis e no estudo
da reprodução social e cultural de Bourdieu e Passeron.
Em resumo, de acordo com a epistemologia estruturalista adotada nos estudos
sobre a reprodução educacional na Europa e nos Estados Unidos, a estrutura
interna do sistema educacional reproduz a estrutura social moldada pela
economia. Nesse contexto, a administração estruturalista desempenha uma
mediação determinista, pois está condicionada por imposições infra-estruturais
de natureza econômica, enquanto que a subjetividade humana e as aspirações
culturais ficam relegadas a segundo plano.
No plano objetivo/subjetivo da análise organizacional, a administração
estruturalista enfatiza a objetividade como critério predominante para avaliar
os fenômenos organizacionais e os atos e fatos administrativos. Como critério de
desempenho administrativo, a objetividade refere-se aos aspectos estruturais e
materiais do sistema educacional, o qual implica um ponto de vista passivo da
ação e da interação humana. Isso significa que, se um sistema educacional adota
a gestão estruturalista como seu estilo administrativo, a objetividade
institucional terá precedência sobre a subjetividade individual.
ADMINISTRAÇÃO INTERPRETATIVA
Como construção heurística e praxiológica de gestão, a administração
interpretativa é uma derivação conceitual da interpretação antropológica do
marxismo e da epistemologia humanista do existencialismo, da fenomenologia e do
anarquismo. Aplicada à educação, a administração interpretativa (do latim
interpretare, julgar a intenção ou explicar o sentido) se ocupa da consciência
individual, do significado subjetivo e da ação humana, enfatizando a
intencionalidade e a liberdade na educação e na sociedade em oposição ao
determinismo econômico.
Ao reconhecer a contribuição da epistemologia humanista do marxismo,34 é
necessário destacar que a inspiração principal do humanismo radical desenvolvido
nos séculos XIX e XX se encontra no existencialismo que, como filosofia
anti-sistêmica e antiorganizacional, parte da noção de que o ser humano
determina seu próprio destino. Patrocinado por Kierkegaard35 no século XIX e
mais tarde desenvolvido por pensadores tão diferentes, como Jaspers, Marcel,
Heidegger, Camus e Sartre,36 o exis-tencialismo se preocupa primordialmente com
a existência humana, a consciência, a liberdade, a subjetividade, a
intencionalidade e a ação humana.
Os esforços iniciais para a concepção de uma teoria humanista e
interpretativa de administração da educação fundamentam-se na intersecção de
contribuições do existencialismo, do anarquismo e do método fenomenológico. De
fato, a fenomenologia enfatiza a importância da consciência individual e trata
de captar a essência do processo pedagógico através de uma aproximação direta
aos fenômenos existentes e uma interpretação crítica das relações que ocorrem no
sistema educacional.37 O anarquismo, como doutrina filosófica e movimento
libertário, proporciona as bases para a concepção da autogestão como modelo de
administração autônoma, em oposição à heterogestão hierárquica e burocrática que
caracterizou o pensamento administrativo desde a escola clássica até o presente.
O existencialismo, como filosofia humanista, enfatiza a consciência subjetiva, a
intencionalidade e a ação humana na sociedade e suas organizações.
Nessa perspectiva interdisciplinar surge a tese de Greenfield,39 que ressalta
o valor da intencionalidade humana na interpretação dos fenômenos sociais e
educacionais e na seleção de opções para a ação concreta dos administradores da
educação. A visão subjetivista e anarquista do pensador canadense condena as
teorias sociológicas e pedagógicas de natureza funcionalista que tentam
controlar a realidade social e educacional em vez de interpretar
significativamente o processo pelo qual criamos o mundo social e
organizacional.40
De acordo com o enfoque interpretativo, o sistema educacional é uma criação
intencional do ser humano. Nesse contexto, a gestão da educação desempenha uma
mediação reflexiva entre a intenção e ação, entre a teoria e a experiência,
entre a educação e a sociedade e, finalmente, entre o indivíduo e seu meio
social.
No plano objetivo/subjetivo da análise organizacional, a administração
interpretativa enfatiza a subjetividade como critério predominante para estudar
e exercer a gestão da educação. Como critério de desempenho administrativo, a
subjetividade reflete o grau de conscientização e inten-cionalidade alcançado na
gestão da educação, preocupando-se mais com a existência humana e a liberdade do
que com as estruturas institucionais e metas materiais. Portanto, se um sistema
educacional adota a gestão interpretativa como seu estilo administrativo, a
subjetividade individual tem precedência sobre a objetividade institucional.
ADMINISTRAÇÃO DIALÓGICA
Como construção heurística e praxiológica de gestão, a administração
dialógica é uma elaboração conceitual baseada na interpretação dos conteúdos e
das contradições que caracterizam a existência humana, a sociedade e o
funcionamento das organizações modernas. Na elaboração da perspectiva dialógica
(do grego dialogikós, relativo a diálogo, discussão, conversação), seus
protagonistas fazem uso seletivo de elementos conceituais e analíticos tomados
de várias fontes, que vão do marxismo ao funcionalismo, passando pela teoria
crítica, pelo existencialismo e pela fenomenologia. Habermas e Gramsci na Europa
e Freire e Saviani na América Latina encabeçam as doutrinas contemporâneas que
servem de fonte para essa perspectiva intelectual.41 Cada um dos quatro
intelectuais protagoniza contribuições próprias e diferenciadas ao
pensamento pedagógico contemporâneo.
Aplicada à educação, a administração dialógica é uma perspectiva analítica e
praxiológica que enfatiza os princípios de totalidade, contradição, praxis e
transformação do sistema educacional e de suas escolas e universidades. No
contexto da tradição do conflito na sociologia e na educação, a administração
dialógica é uma construção alternativa, tanto para a administração
estruturalista como para a administração interpretativa, tratando de superar,
respectivamente, o determinismo econômico e o determinismo antropológico
que lhe são inerentes.
Do ponto de vista de seu conteúdo intrínseco, a gestão dialógica se preocupa
com os fenômenos do poder e da mudança, das desigualdades sociais e da
emancipação humana na escola e na sociedade. Do ponto de vista analítico, a
gestão dialógica utiliza a dialética como método científico e a contradição como
seu fenômeno organizacional básico. Nesse sentido, se encontram valiosos
subsídios na visão dialética da teoria organizacional apresentada por Benson42
nos Estados Unidos, no estudo de Bates sobre a "prática crítica da administração
educacional"43 na Austrália e na concepção analítica de Cury de "uma teoria
crítica do fenômeno educativo"44 no Brasil. Os três pensadores proporcionam
valiosos elementos conceituais e analíticos para a elaboração de uma perspectiva
dialógica de administração da educação.
O conceito de contradição tem importantes implicações para a concepção de uma
perspectiva dialógica de gestão da educação como processo mediador. O certo é
que as múltiplas contradições que caracterizam o sistema educacional sugerem a
necessidade de conceber e adotar uma perspectiva de administração da educação
capaz de desempenhar uma mediação dialética, apoiada precisamente na tese de que
"a categoria da contradição é a base de uma metodologia dialética."45 Com esse
ponto de vista, a administração da educação desempenha uma mediação concreta e
substantiva entre o sistema educacional e a sociedade com suas instituições
econômicas, políticas e culturais; entre a totalidade do sistema educacional e
cada uma de suas partes componentes; entre realidades concretas e suas
abstrações teóricas; entre o contexto das teorias pedagógicas e os compromissos
práticos de seus criadores; e entre os diferentes grupos que participam do
sistema educacional.
No plano objetivo/subjetivo da análise organizacional, a administração
dialógica explora a contradição entre objetividade e subjetividade como dois
processos particulares com vistas a superá-los à luz do conceito de totalidade
como processo global. A totalidade ou síntese se converte então no critério
predominante de desempenho administrativo da perspectiva dialógica. Como
critério de desempenho administrativo, a totalidade se ocupa da unidade
dialética entre as estruturas institucionais objetivas e as ações individuais
subjetivas. A adoção da totalidade como critério de desempenho administrativo
evitará o reducionismo subjetivista da administração interpretativa e o
reducionismo objetivista da administração estruturalista. Ou seja, se um sistema
educacional adota a gestão dialógica como seu estilo administrativo, o critério
de totalidade terá precedência tanto sobre o de subjetividade como sobre o de
objetividade.
OS LIMITES DAS CONSTRUÇÕES INTERACIONISTAS
Em síntese, as três construções interacionistas de administração são
diferentes em termos de seus tipos de mediação e seus critérios predominantes de
desempenho administrativo. São diferentes, também, quanto à posição de seus
protagonistas e adeptos sobre a condição humana na sociedade, sua definição de
qualidade de vida e de educação, e seus conceitos de liberdade, eqüidade,
participação e democracia.
A administração estruturalista efetua uma mediação determinista e enfatiza a
objetividade dos fatos organizacionais e atos administrativos. A perspectiva
estruturalista de administração é materialista, com carac-terísticas estáticas,
auto-reguladoras e com limitado espaço para o exercício da liberdade e da
interação humana. Por sua orientação determinista e auto-reguladora, a
construção estruturalista inibe o exercício efetivo da democracia e da
participação efetiva da cidadania na definição de seu destino individual e
coletivo.
A administração interpretativa realiza uma mediação reflexiva e enfatiza a
subjetividade. A perspectiva interpretativa é intencional e tem na liberdade seu
valor fundamental. A preocupação com a subjetividade e a autonomia individual
implica um conceito libertário de existência humana e de educação. Essas
características revelam que a construção interpretativa favorece a ação humana
individual, mas inibe o exercício da participação como estratégia de ação humana
coletiva na sociedade e em suas escolas e universidades.
A administração dialógica efetua uma mediação dialética e adota o conceito de
totalidade como critério de desempenho administrativo. A perspectiva dialógica
trata de explicar as múltiplas contradições que caracterizam a existência
humana, a sociedade e suas organizações. Do ponto de vista operativo, a
construção dialógica é sintética, visando superar tanto o objetivismo econômico
e materialista da perspectiva estruturalista como o subjetivismo existencialista
e anarquista do paradigma interpretativo. A preocupação com a transformação
social e a emancipação humana implica um conceito substantivo de qualidade de
vida e de educação baseado na busca solidária do bem comum. Filosoficamente, a
construção dialógica se identifica com o socialismo democrático adotado hoje
pelas forças comprometidas com a reconstrução da perspectiva socialista e da
natureza de civilização humana que ela implica na era pós-moderna.
A tradição do conflito na educação e na teoria organizacional e
administrativa tem tido profunda influência na América Latina e no Caribe desde
a década de sessenta. Os protagonistas da pedagogia do conflito na América
Latina centram seus esforços na crítica da teoria pedagógica da sociedade
capitalista e na formulação de novas alternativas conceituais e analíticas
capazes de orientar a pesquisa e a gestão da educação. Junto com essa
característica está a preocupação com as desigualdades sociais e educacionais, a
emancipação humana, a transformação social e o papel da ideologia e do poder na
escola e na sociedade. Freire protagonizou o movimento político-pedagógico mais
importante e mais influente da segunda metade do século XX, concentrando-se nos
seus conceitos de educação bancária, conscientização, educação liberadora,
pedagogia política e ação cultural.47 A mensagem política e a visão dialógica da
obra de Freire tem inspirado a inúmeros trabalhos acadêmicos e experiências
educacionais na América Latina e em outras partes do mundo.
Outro movimento político-pedogógico influente na América Latina apóia-se,
explicitamente, nas teorias européias da hegemonia institucional e da reprodução
social e cultural e nas contribuições econômicas, sociológicas e educacionais da
chamada "esquerda americana."48 Durante duas décadas, as teorias institucionais
e reprodutivistas importadas da Europa e dos Estados Unidos têm invadido as
editoras e as instituições de educação superior da América Latina e do Caribe, e
seus conceitos têm inspirado inúmeros trabalhos acadêmicos, seminários, teses,
pesquisas e publicações.
Finalmente, na década de oitenta, se consolida um terceiro movimento
político-pedagógico, comprometido com a reavaliação da experiência
latino-americana no contexto internacional e com o desenvolvimento de
perspectivas conceituais críticas e de práticas participativas de gestão capazes
de responder, de forma mais efetiva e relevante, às necessidades e aspirações da
sociedade latino-americana.49 Esse movimento político-pedogógico faz uma crítica
sistemática das teorias institucionais e reprodutivistas importadas dos países
industrializados nas últimas décadas. O movimento adota, igualmente, uma postura
crítica com respeito às teorias funcionalistas e desenvolvimentistas que têm
dominado historicamente a pesquisa e a gestão da educação na América Latina e no
Caribe. Ou seja, os protagonistas do novo pensamento pedagógico latino-americano
tentam superar tanto o tradicional funcionalismo consensual como o recente
reprodutivismo institucional, com o objetivo de elaborar novas perspectivas
conceituais e práticas educacionais à luz das aspirações e necessidades
concretas da América Latina e do Caribe no atual contexto de suas relações de
interdependência internacional.
No início da década de noventa, os protagonistas do pensamento
latino-americano enfrentam novos desafios para o estudo e a prática da educação
e de sua gestão. Na realidade, o estudo da administração do conflito está
acompanhado de um crescente debate epistemológico sobre seus fundamentos
teóricos, seus enfoques metodológicos e suas aplicações práticas. Enquanto
alguns críticos destacam limitações práticas na construção interpretativa de
gestão, outros questionam uma série de contribuições do materialismo histórico à
administração da educação atual. Devido aos estreitos vínculos que existem entre
educação e sociedade, a hipótese é que as construções conceituais e
praxiológicas de administração da educação somente serão efetivas se
acompanharem as perspectivas globais de transformação econômica e política da
sociedade como um todo. Essa questão fundamental continua desafiando a
capacidade e a criatividade de fenomenólogos e existencialistas, que enfrentam
dificuldades de natureza estrutural, já que suas perspectivas não tem conseguido
explicar compreensivamente problemas sociais de grande escala que afetam a
educação contemporânea. A preocupação pelas macroestruturas de poder na educação
e na sociedade se acentua na perspectiva estruturalista fundada no materialismo
determinista da administração do conflito. Não obstante, as evidências atuais
indicam que os ideais preconizados pelo movimento não geraram os correlatos
materiais a que aspiravam os países socialistas do Leste europeu e da ex-União
Soviética. O resultado foi o colapso do socialismo real, que vem acompanhado de
uma nova efervescência inte-lectual nesses países e de uma crise de identidade
das forças tradicionalmente definidas à esquerda do espectro político no mundo
ocidental.
Nesse contexto internacional, quais são hoje as contribuições dos pensadores
do conflito à educação e à administração? Em primeiro lugar, a desocultação das
contradições e a crítica da realidade social e educacional do mundo capitalista
representam contribuições importantes. Além disso, é preciso destacar a
atualidade de alguns de seus temas principais, como o papel do poder e do
conflito, a busca da eqüidade e da justiça social e os ideais de emancipação
humana e mudança social. Outra contribuição importante tem sido a de estimular a
imaginação e desafiar a criatividade de políticos e educadores de todo o mundo
para superar as limitações identificadas nos seus sistemas educacionais e em
suas escolas e universidades quando examinadas a partir de diferentes
perspectivas intelectuais.
Ao reconhecer estas e outras contribuições, a crítica contemporânea mostra
também as limitações da tradição do conflito na educação e na administração para
explicar compreensivamente determinadas situações históricas e para fornecer
soluções concretas para problemas educacionais em diferentes circunstâncias e
domínios geográficos. Esse tema adquire particular atualidade diante dos
movimentos reformistas dos últimos anos nos países do Leste europeu, que
questionam sistemas de organização política e social e práticas educacionais
vigentes por muitas décadas. No seio dos atuais movimentos reconstrucionistas,
observa-se um renovado esforço de avaliação da experiência historicamente
acumulada, com vistas a construir uma nova civilização humana à luz da
intersecção correta dos conceitos de liberdade e eqüidade, tanto no plano da
convivência humana diária como no âmbito das relações de interdependência
econômica e política internacional.
CONCLUSÃO: PENSAMENTO CRÍTICO E AÇÃO HUMANA
COLETIVA
O desenvolvimento deste trabalho revela que o funcionalismo e o
interacionismo na administração da educação representam duas tradições
teóricas opostas que se fundamentam em diferentes concepções de ser humano,
diferentes teorias de sociedade, diferentes filosofias de ciência e diferentes
orientações pedagógicas. Para os objetivos do trabalho, em cada uma das duas
grandes tradições é possível conceber pelo menos três construções diferentes de
administração, com seus respectivos tipos de mediação, em função da
correspondente ênfase dada às três seguintes dimensões do sistema educacional:
dimensão institucional ou objetiva; dimensão individual ou subjetiva; e dimensão
grupal ou holística. Nesse sentido, é possível conceber três construções
principais de administração funcionalista (administração burocrática,
administração idiossincrática e administração integradora) e três construções
principais de administração interacionista (administração estruturalista,
administração interpretativa e administração dialógica). Duas construções de
gestão enfatizam a dimensão institucional ou objetiva (administração burocrática
e administração estruturalista); duas enfatizam a dimensão individual ou
subjetiva (administração idiossincrática e administração interpretativa); e duas
enfatizam a dimensão grupal ou holística (administração integradora e
administração dialógica). Na Figura 1 encontra-se uma apresentação esquemática
desses conceitos.
Para completar a descrição e a explicação das características das seis
construções de administração da educação é importante examiná-las
comparativamente, utilizando como vetor analítico a dimensão do comportamento
organizacional que as diferentes construções enfatizam. Esta análise comparativa
permite identificar as semelhanças e diferenças entre as diferentes construções
de administração, como se verá em seguida.
A administração burocrática, inspirada no positivismo e no funcionalismo,
assemelha-se, em determinados aspectos, à administração estruturalista,
fundamentada no materialismo histórico interpretado pelos pensadores da
reprodução institucional. Embora tenham princípios epistemológicos diferentes,
ambas construções enfatizam o institucional e o objetivo. A administração
burocrática está baseada, predominantemente, nos conceitos racionalistas
do funcionalismo sociológico de Weber e Parsons e seus associados, enquanto que
a administração estruturalista se fundamenta primordialmente nas interpretações
institucionais e reprodutivistas da epistemologia materialista de Marx e Engels.
FIGURA 1 CONSTRUÇÕES CONCEITUAIS E PRAXIOLÓGICAS
DE ADMINISTRAÇÃO DA EDUCAÇÃO
|
Tradição
Teórica
Dimensões
Analíticas |
TRADIÇÃO
FUNCIONALISTA
DE
ADMINISTRAÇÃO |
TRADIÇÃO
INTERACIONISTA
DE
ADMINISTRA-ÇÃO |
Tradição
Teórica
Critérios
Administrativos
|
|
Dimensão
Institucional
ou
Objetiva |
Administração
Burocrática:
Mediação
Normativa |
Administração
Estruturalista:
Mediação
Determinista |
Eficácia
versus
Objetividade |
|
Dimensão
Grupal
ou
Holística |
Administração
Integradora:
Mediação
Ambivalente |
Administração
Dialógica:
Mediação
Dialética |
Efetividade
versus
Totalidade |
|
Dimensão
Individual
ou
Subjetiva |
Administração
Idiossincrática:
Mediação
Personalista |
Administração
Interpretativa:
Mediação
Reflexiva |
Eficiência
versus
Subjetividade
|
Ambas construções se ocupam das expectativas institucionais,
ambas são normativas e ambas enfatizam a objetividade dos fatos organizacionais
e dos atos administrativos. Entretanto, apesar das semelhanças entre ambas
perspectivas, a natureza das normas e expectativas institucionais, o significado
da objetividade e o conceito de estrutura são diferentes. São diferentes,
também, a natureza da mediação administrativa e o tipo de participação, já que
as duas construções se baseiam em diferentes conceitos de ser humano, diferentes
teorias de sociedade, diferentes filosofias de ciência e, conseqüentemente,
buscam diferentes tipos de qualidade de vida e de educação.
Outro fato esclarecedor é o paralelo que existe entre a administração
idiossincrática, de orientação psicológica, e a administração interpretativa, de
tendência antropológica. Ambas construções acentuam a subjetividade dos
fenômenos organizacionais e dos atos administrativos. Entretanto, ambas
construções são intrinsecamente diferentes, já que se fundamentam em
diferentes filosofias sociais e diferentes antropologias filosóficas. A
administração idiossincrática baseia-se, predominantemente, no positivismo e no
funcionalismo, enquanto que a administração interpretativa tem raízes no
existencialismo, na fenomenologia, no anarquismo e na interpretação humanista do
marxismo. Por tanto, seus protagonistas assumem posições próprias à respeito da
escola e da condição humana na sociedade. De fato, a administração
idiossincrática é funcional, utilitária e instrumental; enquanto que a
administração interpretativa é acionalista, reflexiva e substantiva.
Finalmente, é revelador examinar como os estudiosos do consenso e do conflito
concebem os esforços de superação das construções anteriores. Tanto na tradição
funcionalista do consenso como na tradição interacionista do conflito, existe
uma tentativa de síntese superadora dentro de suas próprias orientações
epistemológicas. Na tradição funcionalista, o caminho da superação é o da
integração dos elementos burocráticos e idiossincráticos, da instituição e do
indivíduo, do papel e da personalidade, das expectativas nomotéticas e das
necessidades idiográficas, da objetividade e da subjetividade, da eficácia e da
eficiência. Por cima dos critérios de eficácia e eficiência, a administração
integradora enfatiza o critério de efetividade. Sua mediação administrativa é
ambivalente, transacional, situacional. Seu enfoque é tático, pragmático,
psicossociológica. Na tradição interacionista, o caminho da superação é o da
contradição dialógica entre os elementos estruturais e humanos que constituem o
sistema educacional, entre a instituição e o indivíduo, entre o determinismo e a
reflexão, entre a objetividade e a subjetividade. Superando os conceitos de
objetividade e subjetividade, a administração dialógica preconiza o critério de
totalidade. Sua mediação administrativa é dialética. Seu enfoque é estratégico,
libertário, sócio-político. Os protagonistas de ambas construções
superadoras se identificam com as forças políticas progressistas na educação e
na sociedade: de um lado, os adeptos do liberalismo social, abertos à
problemática social e preocupados com o papel da eqüidade; e de outro, os
adeptos do socialismo democrático, comprometidos com a redefinição do papel da
liberdade e da participação cidadã na reconstrução da perspectiva socialista e
da natureza de civilização humana que a sustenta.
O resumo comparativo das semelhanças e diferenças entre as seis construções
de gestão da educação sugere três observações adicionais. A primeira refere-se à
hipótese de que as seis construções de administração possam ser consideradas
como seis caminhos alternativos a serem utilizados no estudo e na prática da
gestão da educação. A aceitação da existência das seis construções apóia-se num
tipo de pluralismo teórico que valoriza a coexistência de teorias e práticas
adotadas a partir de significados e interpretações múltiplas dos fenômenos
sociais e educacionais e dos atos e fatos organizacionais e administrativos em
diferentes realidades sociais e circunstâncias históricas. Entretanto, para
evitar o relativismo mecânico e a neutralidade científica, a aceitação da
coexistência das seis construções deve subordinar-se a uma posição crítica e a
um compromisso político com a melhoria da qualidade de vida humana na sociedade
e na educação.
A segunda observação refere-se ao temor de que as seis construções de
gestão da educação sejam demasiadamente rígidas. Nesse sentido, é necessário
enfatizar que as seis construções são elaborações heurísticas e, como tais, não
existem em forma pura na vida real. Se assim é, para superar a histórica
dicotomia entre teoria e observação, as diferentes perspectivas analíticas devem
ser objeto de um permanente processo de construção e reconstrução. Somente assim
poderão ser instrumentos eficazes para captar a essência do processo educacional
em transformação e para interpretar corretamente diferentes formas de
organização e administração da educação.
A terceira observação refere-se à natureza do desempenho profissional dos
administradores da educação, que não pode ser avaliada exclusivamente do ponto
de vista das orientações filosóficas e dos interesses políticos associados a
determinada perspectiva de gestão. Na realidade, em qualquer situação, sempre
existe espaço para que o administrador possa empenhar-se num duradouro exercício
crítico de desconstrução e reconstrução da educação e da sociedade. De fato,
existem crescentes esforços conceituais e analíticos que visam estudar a
educação e sua gestão no contexto das contradições e diversidade econômicas,
políticas e culturais da sociedade moderna. Esses esforços fundamentam-se na
articulação criativa de contribuições de diferentes construções ou paradigmas
das ciência sociais e educacionais da atualidade. Os trabalhos mais criativos
adotam uma renovada perspectiva crítica para estudar a vida das organizações
humanas, em consonância com recentes desenvolvimentos teóricos mediados por uma
orientação ética comprometida com o desenvolvimento qualitativo da convivência
humana coletiva.50
Estas observações sugerem a necessidade de desenvolver uma teoria crítica e
construtiva de administração da educação que seja capaz de explicar
compreensivamente os fenômenos administrativos que ocorrem na escola, na
universidade e no sistema educacional como um todo, à luz do conceito de
qualidade de vida humana. A premissa é que a utilização correta da
potencialidade reflexiva do pensamento crítico permite submeter as diferentes
construções de gestão da educação a uma análise epistemológica permanente, com o
objetivo de determinar o valor e os limites de seus fundamentos teóricos e seus
procedimentos metodológicos. Nesse sentido, o pensamento crítico, revisado à luz
dos recentes esforços reconstrucionistas na sociologia organizacional e na
pedagogia, passa a ser um instrumento de superação conceitual e analítica no
campo da administração da educação.
A atitude crítica merece atenção especial por parte dos administradores da
educação, já que facilita a mediação entre teoria e prática, entre a reflexão e
as possibilidades concretas de ação humana. Não obstante, nos esforços críticos
de vanguarda no campo da sociologia organizacional e da gestão da educação tem
havido maior preocupação com a denúncia da situação social e educacional do que
com a definição de possibilidades concretas de ação humana para elevar o nível
de qualidade de vida e de educação. Ou seja, ao enfatizar a possibilidade
reflexiva do pensamento crítico na educação e em sua administração, descuidou-se
a ação humana51 para adotar soluções superadoras. Em conseqüência, ainda não se
consolidou uma perspectiva compreensiva que sirva de guia para a pesquisa e a
prática da administração da educação. Por outro lado, a passagem da avaliação
crítica da realidade organizacional e administrativa na educação para propostas
concretas de ação humana coletiva é um grande desafio para a gestão da educação
como processo mediador. A estratégia mais efetiva para enfrentar esse desafio é
a participação cidadã, concebida como direito e dever de todos os integrantes da
uma comunidade democrática.
Participação e democracia são, na realidade, dois conceitos estreitamente
associados. No contexto dessa associação, impõe-se a necessidade de construir
genuínas perspectivas democráticas de gestão da educação como processos de
participação cidadã à luz do conceito de qualidade de vida humana.52 Tal
iniciativa fundamenta-se na convicção de que a educação é uma exigência
prioritária de todo projeto de transformação social. Essa exigência acentua-se
nos países da América Latina e do Caribe pois, para consolidar suas conquistas
políticas, necessitam criar sistemas efetivos de educação e gestão educacional,
na convicção de que a escola e a universidade são instâncias poderosas para a
construção da democracia como caminho político para alcançar elevados níveis de
qualidade de vida humana coletiva.
NOTAS E REFERÊNCIAS
1. Este ensaio incorpora revisões de trabalhos publicados anteriormente
em: Benno Sander, "Consenso e conflito na administração da educação," Revista
Brasileira de Administração da Educação, Porto Alegre, Vol. 1, nº 1, 1983, pp.
12-34; B. Sander, "A administração da educação como processo mediador," Revista
Brasileira de Administração da Educação, Porto Alegre, Vol. 2, nº 1, 1984, pp.
38-62; B. Sander, Consenso e conflito: perspectivas analíticas na pedagogia e na
administração da educação, São Paulo e Niterói, Editora Pioneira/Universidade
Federal Fluminense, 1984; B. Sander, Educación, administración y calidad de
vida, Buenos Aires, Ediciones Santillana, 1990; B. Sander "Gestión educativa y
calidad de vida," La Educación, Washington, DC, Ano XXXVIII, nº 118, 1994,
pp. 237- 264.
2. Pedro Demo, Avaliação qualitativa, São Paulo, Cortez Editora, 1987,
p. 15.
3. Benno Sander, Educación, administración y calidad de vida, Buenos
Aires, Ediciones Santillana, 1990, p. 10.
4. Progama das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Informe
sobre desarrollo humano, 1994, México, DF, Fondo de Cultura Económica, 1994, p.
15.
5. Para uma discussão do conceito de mediação como categoria analítica
formal e concreta, ver Guiomar Namo de Mello, Magisterio de 1º grau: da
competência técnica ao compromisso político, São Paulo, Cortez Editora, 1982,
pp. 22-34; Carlos Roberto Jamil Cury, Educação e contradição: elementos
metodológicos para uma teoria crítica do fenômeno educativo, São Paulo, Cortez
Editora, 1985; Benno Sander, Educación, administración y calidad de vida, Buenos
Aires, Ediciones Santillana, 1990, pp. 143-145.
6. Para uma discussão mais extensa da tradição funcionalista de
administração do consenso, ver Benno Sander, Educación, administración y calidad
de vida, Buenos Aires, Ediciones Santillana, 1990, cap. 10, pp. 159-176; B.
Sander, Consenso e conflito: Perspectivas analíticas na pedagogia e na
administração da educação, São Paulo e Niterói, Pioneira/UFF, 1984, pp.
107-120.
7. Auguste Comte, Cours de philosophie positive, 1830-1842; Herbert
Spencer, System of synthetic philosophy, London, 1862-1892; Vilfredo Pareto,
Tratatto di sociologia generale, 1916; Émile Durkheim, The rules of the
sociological method, Chicago, The University of Chicago Press, 1938.
8. Kurt Lewin, A dynamic theory of personality, New York, McGraw-Hill
Book Company, 1935; George Homans, The human group, New York, Hartcourt, Brace
and Company, 1950; Robert K. Merton, Social theory and social function, New
York, The Free Press of Glencoe, 1957; Talcott Parsons, The social system, New
York, The Free Press of Glencoe, 1949; Talcott Parsons e Edward Shills, eds.,
Toward a general theory of action, Cambridge, Mass., Harvard University Press,
1951.
9. Para uma revisão atualizada do impacto do positivismo lógico no
desenvolvimento da teoria administrativa na educação ocidental, ver Jack
A. Culbertson, Building bridges, University Park, Pennsylvania, University
Council for Educational Administration (UCEA), 1995, pp. 34-46. Ver também os
trabalhos originais de Viktor Kraft, The Vienna circle: the origin of
neopositivism, New York, Philosophical Library, 1953; P. Achinstein e S.
F. Barker, eds., The legacy of logical positivism, Baltimore, The Johns Hopkins
Press, 1969; O. Neurath, Le développement du cercle de Vienna et l’avenir de
l’empirisme logique, Paris, Librerie Scientifique Herman et Cie., 1935.
10. A. P. Coladarci e J. W. Getzels, The uses of theory in educational
administration, Stanford, California, Stanford University School of Education,
1955; Andrew W. Halpin, Theory and research in administration, New York,
McMillan, 1966; Andrew W. Halpin, ed., Administrative theory in education,
Chicago, Midwest Administrative Center, University of Chicago, 1958; John K.
Hemphill, "Personal variables and administrative styles," Behavioral science and
educational administration, Sixty-Third Yearbook of the National Society for the
Study of Education, 2a. parte, Chicago, University of Chicago Press, 1964; Jacob
W. Getzels e Egon G. Guba, "Social behavior and the administrative process,"
School Review, nº 65, 1957, pp. 423-441; Jacob W. Getzels, James L. Lipham e
Roald F. Campbell, Educational administration as a social process: theory,
research and practice, New York, Harper and Row Publishers, 1968.
11. Chester I. Barnard, The functions of an executive, Cambridge, Mass.,
Harvard University Press, 1938; Herbert A. Simon, Administrative behavior, New
York, McMillan, 1945; Daniel E. Griffiths, Administrative theory, New York,
Appleton-Century-Crofts, 1959.
12. Jacob W. Getzels e Egon G. Guba, "Social behavior and the
administrative process," School Review, nº 65, 1957, pp. 423-441; Jacob W.
Getzels, James L. Lipham e Roald F. Campbell, Educational administration as a
social process: theory, research and practice, New York, Harper and Row
Publishers, 1968.
13. As três perspectivas funcioncionalistas de administração do consenso
representam uma reelaboração conceitual dos estilos de liderança concebidos por
Guba e Bidwell e por Moser, a partir da formulação inicial de Getzels e Guba.
Para uma caracterização dos três estilos, originalmente denominados nomotético,
idiográfico e transacional, ver Egon G. Guba e Charles E. Bidwell,
Administrative relationships, Chicago, 1957; Robert P. Moser, "The leadership
patterns of school superintendents and school principals," Administrator's
Notebook, nº 6, setembro 1957, pp. 1-4. Ver também Jacob W. Getzels, James L.
Lipham e Roald F. Campbell, Educational administration as a social process, New
York, Harper and Row, 1968, pp. 145-150; Wayne K. Hoy e Cecil G. Miskel,
Educational administration: theory, research and practice, New York, Random
House, 1982, pp. 68-71; Paula Silver, Educational administration:
theoretical perspectives on practice and research, New York, Harper and
Row Publishers, 1983, pp. 239-268.
14. Ver Frederick W. Taylor, Principles of scientific management, New
York, Harper and Row Publishers, 1911; Henri Fayol, Administration industrielle
el générale, Paris, Dunod, 1916; Max Weber, The theory of social and economic
organization, New York, The Free Press, 1964.
15. Elton Mayo, The human problems of an industrial civilization, New
York, McMillan Book Company, 1933; Fritz J. Roethlisberger e William J. Dickson,
Management and the worker, Cambridge, Harvard University Press, 1939.
16. Chester I. Barnard, The functions of an executive, Cambridge, Mass.,
Harvard University Press, 1938; Herbert A. Simon, Administrative behavior, New
York, McMillan, 1945; Daniel E. Griffiths, Administrative theory, New York,
Appleton-Century-Crofts, 1959. Jacob W. Getzels e Egon G. Guba,
"Social behavior and the administrative process," School Review, nº 65, 1957,
pp. 423-441; Jacob W. Getzels, James L. Lipham e Roald F. Campbell, Educational
administration as a social process: theory, research and practice, New York,
Harper and Row, 1968; Chris Argyris, Integrating the individual and the
organization, New York, Wiley, 1964; Douglas M. McGregor, The human side of
enterprise, New York, McGraw-Hill, 1960; A. W. Halpin, Theory and research in
education, New York, McMillan, 1966.
17. Ver Carlos Corrêa Mascaro, A administração escolar na América
Latina, Salvador, Bahia, ANPAE, caderno nº 4, 1968; Benno Sander e Thomas
Wiggins, "Cultural context of administrative theory: in consideration of a
multidimensional paradigm," Educational Administration Quarterly, Vol 21, nº 1,
Inverno de 1985, pp. 95-117; B. Sander, "Gestion et administration des systèmes
éducatifs: problématique et tendances," Perspectives, Vol. 19, nº 2, 1989, pp.
249-266; Carlos E. Olivera, The administration of educational development in
Latin America, Paris, UNESCO, Instituto Internacional de Planejamento da
Educação, 1979.
18. Entre as principais associações profissionais comprometidas com a
construção teórica na educação e na gestão da educação na América Latina e
no Caribe, encontram-se a Associação Nacional de Profissionais de
Administração da Educação (ANPAE) do Brasil, a Sociedade Interamericana de
Administração de Educação, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em
Educação(ANPEd) do Brasil e a Caribbean Society for Educational Administration.
A ação cooperativa entre a Associação Nacional de Profissionais de Administração
da Educação (ANPAE) do Brasil e o University Council for Educational
Administration (UCEA) dos Estados Unidos foi fundamental para a criação da
Sociedade Interamericana de Administração da Educação em 1979 e para o
desenvolvimento da cooperação interamericana no campo da gestão da educação.
Sobre este tema, ver o excelente capítulo “Reach across the seas” de Jack A.
Culbertson, Building bridges, University Park, Pennsylvania, University Council
for Educational Administration (UCEA), 1995, pp. 177-207.
19. Muitas são as revisões críticas da teoria organizacional e
administrativa na educação do século XX e seria impossível enumerá-las todas.
Entre os estudos recentes, incluem-se: Benno Sander, Educación, administración y
calidad de vida, Buenos Aires, Ediciones Santillana, 1990; Jack Culbertson,
"Educational administration and planning at a cross-roads in knowledge
development," Trabalho apresentado no Quinto Programa Internacional de
Intercâmbio na Administração da Educação (IIP'82), celebrado na Nigéria em 1982,
mimeo; Daniel E. Griffiths, "Theories: past, present, and future," Trabalho
apresentado no IIP'82 antes citado; Richard J. Bates, "Towards a critical
practice of educational administration," in Studies in Educational
Administration, CCEA, nº 27, setembro de 1982; Thomas B. Greenfield, "Theory
about organizations: a new perspective and its implications for schools," in
Meredidd Hughes, ed., Administering education: international challenge, London,
The Athlone Press, 1975, pp. 71-99; José Camilo dos Santos Filho, "Administração
educacional e desenvolvimento social," Revista Brasileira de Administração da
Educação, Porto Alegre, Vol. 1, nº 1, 1982, pp. 46-64.
20. Frederick Suppe, The structure of scientific theories, Urbana,
University of Illinois Press, 1977, p. 632.
21. Jeffrey Alexander, ed., Neofunctionalism, Beverly Hills, California,
Sage Publications, Inc., 1985.
22. Um indicador do movimento epistemológico que estuda os limites dos
fundamentos positivistas das teorias organizacionais e administrativas
utilizadas na educação e que examina as possibilidades de superação
encontra-se na efervescência intelectual retratada em recentes publicações,
como: D. C. Phillips, "After the wake: postpositivistic educational thought,"
Educational Researcher, Vol. 12, nº 5, 1983, pp. 4-12; Elliot W. Eisner,
"Anastasia might still be alive, but the monarchy is dead," Educational
Researcher, Vol. 12, nº 5, 1984, pp. 13-24; Flora Ida Ortíz, "Response to the
Phillips-Eisner papers," Organization Theory Dialogue, AERA, Vol. 4, nº 1, 1984,
pp. 2-4; William Foster, "Some comments on logical positivism," Organization
Theory Dialogue, AERA, Vol. 4, nº 1, 1984, pp. 4-9; Alberto Guerreiro Ramos, A
nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações, Rio de
Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1981; Donald J. Willower,
"Educational administration: some philosophical and other considerations,"
Journal of Educational Administration, Vol. 19, nº 2, 1981, pp. 115-139; C. J.
B. McMillan e James W. Garrison, "Using the new philosophy of science in
criticizing current research traditions in education," Educational Researcher,
AERA, Vol. 13, nº 10, dezeembro de 1984, pp. 15-21; Jeffrey Alexander, ed.,
Neofunctionalism, Beverly Hills, California, Sage Publications, Inc., 1985.
23. Karl Marx, El capital, México, Fondo de Cultura, 1966.
24. Soren A. Kierkegaard, Filosofiske smuler, 1844; Jean-Paul Sartre,
L'être el le néant, 1943; Immanuel Kant, Kritik der reinen Vernunft, 1781.
25. Immanuel Kant, Die Metaphysik der Sitten, 1797; Johann Gettlieb
Fichte, Darstellung der Wissenschaftslehre, 1801; George W. F. Hegel,
Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte, 1837.
26. Para uma análise da fenomenologia como método de conhecimento
científico, ver Edmund Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und
phänomenologischen Philosophie, 1913.
27. Para uma visão geral da literatura especializada sobre o anarquismo
como doutrina filosófica e movimento revolucionário, ver George Woodcock,
Anarchism: a history of liberation ideas and movements, Middlesex,
Harmondsworth, 1963. A proposta de Pierre-Joseph Proudhon é particularmente
importante na teoria administrativa como pode deduzir-se, por exemplo, de Jean
Bacal, Proudhon: pluralisme et autogestion, Paris, Aubier-Montaigne, 1970, e de
Fernando C. Prestes Motta, Burocracia e autogestão, São Paulo, Editora
Brasiliense, 1981.
28. Ver Ralph Dahrendorf, Class and class conflict in industrial
societies, Stanford, California, Stanford University Press, 1959.
29. A concepção mais compreensiva da pedagogia do conflito e de seus
fundamentos e objetivos é de Moacir Gadotti, Educação e poder: introdução à
pedagogia do conflito, São Paulo, Cortez Editora, 1981.
30. Louis Althusser, et al., Lire le capital, Paris, 1967; Pierre
Bourdieu e Jean-Claude Passeron, La reproduction: élément pour une théorie du
système d'enseignement, Paris, Les Éditions de Minuit, 1970; C. Baudelot e R.
Establet, L'école capitaliste en France, Paris, Maspero, 1971; Samuel Bowles y
Herbert Gintis, Schooling in capitalist America, New York, Basic Books,
1976.
31. É importante destacar que as controvérsias acerca da contribuição de
Marx às ciências sociais deram origem a diferentes interpretações
epistemológicas que vão do idealismo humanista ao materialismo econômico e
estruturalista. Uma epistemologia "marxista" de Marx pode ser
descrita melhor como uma síntese da orientação materialista e a interpretação
idealista. Esta epistemologia dialética se reflete no pensamento crítico e
construtivo que caracteriza as obras de muitos escritores contemporâneos de
influência na América Latina.
32. Ver Louis Althusser et al., Lire le capital, Paris, 1967. Para uma
crítica penetrante da epistemologia estruturalista do marxismo, ver Raymond
Aron, Uma sagrada família e outra, Brasília, Editora Universidade de Brasília,
1970.
33. Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, La réproduction: éléments
pour une théorie du système d'enseignement, Paris, Les Éditions de Minuit,
1970.
34. A espistemologia humanista de Marx fundamenta-se nas primeiras
obras de sua vida, claramente influenciadas pela filosofia idealista de Hegel,
como o revelam, por exemplo, seus Manuscritos econômicos e filosóficos, de 1844,
descobertos em 1932 e publicados depois em Moscou.
35. Soren A. Kierkegaard, Filosofiske smuler, 1844.
36. Karl Jaspers, Existenz-Philosophie, 1937; Martin Heidegger, Sein und
Zeit, 1927; Albert Camus, L'homme révolté, 1954; Jean-Paul Sartre,
L'existencialisme est un humanisme, Paris, 1946; Jean-Paul Sartre, Marxisme et
existencialisme, Paris, 1962.
37. Para uma discussão do papel da fenomenologia na educação, ver
Bernard Curtis e Wolfe Mays, eds., Phenomenology and education, Mehuen,
1978.
38. Ver Pierre-Joseph Proudhon, Systèmes des contradictions économiques:
philosophie de la misère, Paris, Éditions Marcel Rivière, 1923; P. J. Proudhon,
De la création de l'ordre dans l'humanité, Paris, Garnier, 1849. Para uma
discussão da autogestão na linha de Proudhon, ver Jean Bancal, Proudhon:
pluralisme et autogestion, Paris, Aubier-Montaigne, 1970; Fernando C. Prestes
Motta, Burocracia e autogestão, São Paulo, Editora Brasiliense, 1981.
39. Thomas B. Greenfield, "Theory about organizations: a new perspective
and its implications for schools," in Meredidd Hughes, ed., Administering
education: international challenge, London, The Athlone Press, 1975, pp. 71-99;
T. B. Greenfield, "Organization theory as ideology," Curriculum Inquiry, Vol. 9,
nº 2, 1979, pp. 97-102; T. B. Greenfield, "Research in educational
administration in the United States and Canada: an overview and critique,"
Educational Administration, Vol. 8, nº 1, 1980, pp. 207-245. Para uma crítica da
obra de Greenfield, ver Donald J. Willower, "Educational administration: some
philosophical and other considerations," Journal of Educational Administration,
Vol. 19, nº 2, verão 1981, pp. 115-139; Daniel E. Grittiths, "Some thoughts
about theory in educational administration," UCEA Review, Vol. 17, nº 1, 1975;
Daniel E. Griffiths, "The individual in organization: a theoretical
perspective," Educational Administration Quarterly, nº 13, 1977, pp. 1-18;
Daniel E. Griffiths, "Intellectual turmoil in educational administration,"
Educational Administration Quarterly, Vol. 15, nº 3, 1979, pp. 43-65.
40. Thomas B. Greenfield, "Organization theory as ideology," Curriculum
Inquiry, Vol. 9, nº 2, 1979, p. 100.
41. Jürgen Habermas, Theory of communicative action (Vol.1), Boston,
Beacon, 1984. Ver também Beno Siebeneichler, Jürgen Harbermas: razão
comunicativa e emancipação, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989; Antonio
Gramsci, Os intelectuais e a organização da cultura, Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1979; Paulo Freire, Educação como prática da liberdade, Rio de
Janeiro, Editora Paz e Terra, 1967; Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, Rio de
Janeiro, Editora Paz e Terra, 1968; Dermeval Saviani, Educação: do senso comum à
consciência filosófica, São Paulo, Cortez Editora, Autores Associados,
1982. Para uma visão da influência de Dermeval Saviani na educação
brasileira, ver Celestino Alves da Silva Junior, org., Dermeval Saviani e a
educação brasileira, São Paulo, Cortez Editora, 1994.
42. J. Kenneth Benson, "Organizations: a dialectical view,"
Administrative Science Quarterly, Vol.22, nº 1, março de 1977, pp. 1-21.
43. Richard J. Bates, "Towards a critical practice of educational
administration," Studies in Educational Administration, CCEA, nº 27, setembro de
1982, pp. 1-15.
44. Carlos Roberto Jamil Cury, Educação e contradição: elementos
metodológicos para uma teoria crítica do fenômeno educativo, São Paulo, Cortez
Editora, 1985.
45. Carlos Roberto Jamil Cury, Educação e contradição, cit., p. 24.
46. Para uma análise dos esforços de reconstrução da perspectiva
socialista a partir das razões históricas do recente colapso do socialismo
real, ver Eric Hobsbawm, História do marxismo, Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1992; Francisco de Oliveira, Uma alternativa democrática ao liberalismo, 1992;
Carlos Nelson Coutinho, Democracia e socialismo: questões de princípio e
contexto brasileiro, São Paulo, Cortez Editora, 1992; Gaudêncio Frigotto,
"Trabalho e educação face à crise do capitalismo: ajuste neoconservador e
alternativa democrática," Tese defendida no concurso para professor titular da
Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeriro, 1993.
47. Paulo Freire, Educação como prática da liberdade, Rio de Janeiro,
Editora Paz e Terra, 1967; Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, Rio de Janeiro,
Editora Paz e Terra, 1968; Paulo Freire, Ação cultural para a liberdade, Rio de
Janeiro, Editora Paz e Terra, 1981.
48. Entre os autores europeus e norte-americanos da tradição do conflito
na educação que tiveram grande penetração na América Latina, destacam-se:
Antonio Gramsci, Il materialismo storico, Roma, Editori Riuniti,
1973; Louis Althusser, “Idéologie et appareils idéologiques d’État,”
Pensée, Paris, junho 1970; Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, La
reproduction: éléments pour une théorie du système d’enseignement, Paris, Les
Éditions de Minuit,1970; Michael Young, ed., Knowledge and control:
new directions for the sociology of education, Londres, Collier-MacMillan,1971;
Michael W. Apple, Ideology and curriculum, Londres, Routledge and Kegan
Paul,1979; Samuel Bowles e Herbert Gintis, Schooling in capitalist America, New
York, Basic Books, 1976; Martin Carnoy, Education as cultural imperialism,
New York, Mckay, 1974; Martin Carnoy e Henry M. Levin, Schooling and work in a
democratic state, Stanford, California, Stanford University Press, 1985;
Stanley Aronowitz e Henry A. Giroux, Education under siege: the conservative,
liberal and radical debate over schooling, South Hadley, Mass., Bergin and
Garvey Publishers, 1985; Henry A. Giroux, Theory and resistance in
education, South Hadley, Mass., Bergin and Garvey Publishers, 1983.
49. Esta orientação crítica e construtiva se encontra, por exemplo, nos
trabalhos de Juan Carlos Tedesco, El desafío educativo: calidad y democracia,
Buenos Aires, Grupo Editor Latinoamericano, 1987; Guiomar Namo de Mello,
Magistério de 1º grau: da competência técnica ao compromisso político, São
Paulo, Cortez Editora, 1982, cap. 1; Cecilia Braslavski, "Un desafío fundamental
de la educación durante los próximos 25 años: construir su sentido,” La
Educación, Washington, DC, Ano 31, nº 101, 1987, pp. 67-82; Pedro Demo,
Avaliação qualitativa, São Paulo, Cortez Editora, 1987; Walter E. Garcia,
"Educación en los años 90: ajustes o desajustes," UNESCO, Congreso Internacional
sobre Planeamiento y Gestión del Desarrollo de la Educación, México, 26-30 de
março de 1990; Benno Sander, Educación, administración y calidad de vida, Buenos
Aires, Ediciones Santillana, 1990.
50. Ver, por exemplo, a recente obra editada por Colleen A. Capper,
Educational administration in a pluralistic society, Albany, NY, The State
University of New York Press, 1993. À luz de uma perspectiva multiparadigmática
informada pelas teorias críticas e pós-estruturalistas, a obra apresenta oito
estudos de gestão da educação preocupados com distintos grupos oprimidos e
discriminados no contexto da sociedade atual. Ver especialmente os capítulos de
Colleen A. Capper, Benno Sander e William Greenfield.
51. O enfoque de ação humana se identifica com uma sociologia reflexiva
e ética que outorga papel central ao ser humano como ator determinante na vida
das organizações e na sociedade. Entre seus protagonistas destacam-se: Alain
Touraine, Sociologie de l’action, Paris VI, Éditions du Seuil, 1965; Michel
Crozier y Erhard Friedberg, L’acteur et le système: les contraintes de
l’action collective, Paris VI, Éditions du Seuil, 1977; David Silverman, The
theory of organizations: a sociological framework, New York, Basic Books, 1970;
Alberto Guerreiro Ramos, A nova ciência das organizações: uma reconceituação da
riqueza das nações, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1981; Henry Giroux,
Theory and resistance in education, South Hadley, Mass., Bergin and Garvey
Publishers, 1983.
52. Para a discussão de uma perspectiva democrática de gestão
educacional como proceso de participação coletiva, ver Benno Sander, Educación,
administración y calidad de vida, Buenos Aires, Ediciones Santillana, 1990, pp.
201-216; B. Sander, Management and administration of educational systems: major
issues and trends, Paris, UNESCO, International Institute of Educational
Planning, Booklet nº 2, 1989; B. Sander, "Educational administration and
developing countries," in Coleen A. Capper, ed., Educational administration in a
pluralistic society, Albany, NY, The State University of New York Press, 1993,
pp. 238-266; Maria Beatriz Moreira Luce e Marisa Timm Sari, “A educação
para todos exige uma nova ética de gestão: participação e corresponsabilidade,”
Em Aberto, Brasília, Ano XIII, no. 59, julho/setembro, 1993; José Camilo dos
Santos Filho, “O recente processo de descentralização e de gestão democrática da
educação no Brasil,” Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, Vol.
I, no. 1, julho de 1994, pp. 219-241; Vitor Henrique Paro, “Gestão da
escola pública,” Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, Vol. 1,
no. 1, julho de 1994, pp. 255-290. Sobre o tema da formação democrática e
educação cidadã, ver as recentes reflexões de Emilio Tenti Fanfani, “Escuela y
política: formación del ciudadano del año 2.000,” in Daniel Filmus, ed., Para
qué sirve la escuela, Buenos Aires, Tesis-Grupo Editorial Norma, 1993, pp.
51-66; Pablo Latapi, “Educación para la tolerancia? Equívocos, requisitos y
posibilidades,” in Boletin del Proyecto Principal de Educación en América Latina
y el Caribe, Santiago, UNESCO, OREALC, no. 34, diciembre de 1994, p. 59-66.
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