GESTÃO DA EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA:
DEMOCRACIA E QUALIDADE

Benno Sander
Professor Universitário de Gestão da Educação

Palestra proferida por ocasião do lançamento do livro Gestão da Educação na América Latina:
construção e reconstrução do conhecimento, Campinas, Editora Autores Associados, 1996
e posteriormente publicada nos Anais do Encontro Estadual de Administração
da Educação, ANPAE/Ceará, Fortaleza, 1995. Uma versão em espanhol foi publicada
sob o título Nuevas Tendencias en la Gestión Educativa, in La Educación,
Washington, DC, Organização dos Estados Americanos, v. XL, n. 123, 1996.


Introdução

A construção do conhecimento que informa as novas tendências na administrção da educação é o tema central desta reflexão. Suas idéias principais constituem o cerne de meu último livro sobre a Gestão da educação na América Latina,1 publicado simultaneamente em São Paulo, Buenos Aires e Washington, DC. Parte considerável da obra retoma trabalhos publicados anteriormente sobre a recente experiência brasileira e latino-americana no campo da educação e da administração escolar e universitária e os reescreve em perspectiva histórica no contexto da nova realidade econômica e política internacional.

Do ponto de vista conceitual, esta reflexão sobre a gestão da educação latino- americana se inscreve no movimento teórico das ciências sociais e se insere no curso do desenvolvimento histórico da América Latina examinado no contexto de suas relações internacionais. Nesse sentido, parto da premissa que os problemas e desafios que o Brasil e os países irmãos da América Latina enfrentam hoje na prática da educação e na sua administração se compreendem à medida em que são examinados no contexto das forças econômicas, políticas e culturais no interior de cada nação e no âmbito das suas relações de interdependência internacional. No entanto, dentro desse conjunto de inter-relações, defendo a tese de que a gestão da educação tem seu próprio corpo de conhecimentos e práticas sociais, historicamente construídas em função da missão específica das instituições de ensino na sociedade. Defino a especificidade da administração da educação como campo teórico e praxiológico em função da natureza peculiar da educação como prática política e cultural comprometida com a promoção dos valores éticos que orientam o exercício pleno da cidadania na sociedade democrática.

A gestão da educação em perspectiva histórica

Minha primeira preocupação é contextualizar o estudo da gestão da educação na América Latina, examinando-a no âmbito de sua história política e cultural. Este exercício se fundamenta na hipótese de que o atual estado do conhecimento no campo da administração da educação não é um fato gratuito; ao contrário, é o resultado de um longo processo de construção histórica, do qual somos todos participantes. Ou seja, somos autores de uma história inacabada que continuamos a escrever ao longo dos anos.

Existem diversas leituras desse precesso de construção. Minha leitura histórica divide-se em cinco fases seqüenciais, que correspondem a cinco enfoques conceituais e analíticos diferentes para estudar o processo de construção, desconstrução e reconstrução do conhecimento na administração da educação latino-americana. Nessa leitura, faço referência ao enfoque jurídico que dominou a gestão da educação durante o período colonial com seu caráter normativo e seu pensamento dedutivo; ao enfoque tecnocrático do movimento científico, gerencial y burocrático da escola clássica de administração desenvolvida no princípio do século XX à luz da lógica econômica que caracterizou o processo de consolidação da Revolução Industrial; ao enfoque comportamental da escola psicossociológica dos anos trinta e quarenta que informou a utilização da teoria do sistema social na organização e gestão da educação; ao enfoque desenvolvimentista, de natureza modernizadora, dos autores estrangeiros da pós-guerra; e ao enfoque sociológico dos autores latino-americanos das últimas décadas, preocupados com a concepção de teorias sociológicas e soluções educacionais para atender às necessidades e aspirações da sociedade latino-americana.

Esta trajetória histórica do pensamento administrativo na educação se inscreve no  movimento teórico dominante nas ciências sociais aplicadas da América Latina. O estudo das novas tendências na gestão da educação que hoje está na nossa agenda de debates também se inscreve nesse movimento e, como tal, deve beneficiar-se das lições do passado, comprometer-se com a solução dos problemas do presente e antecipar-se às necessidades e aspirações do futuro. Por quê? Porque a história não terminou ontem, nem começa hoje. Diria que hoje estamos escrevendo mais um capítulo de uma longa obra político-pedagógica em construção permanente.

A história não terminou: construir é preciso

Convencido de que história não terminou, minha segunda preocupação está relacionada com a necessidade de realizar renovados esforços de construção do conhecimento científico e tecnológico no campo da administração da educação latino-americana. Os esforços realizados no passado recente, no contexto ampliado do enfoque sociológico e à luz das novas exigências nacionais e internacionais, apresentam resultados de distinta natureza e alcance. Hoje, como no passado, se observa que os estudos e experiências no campo da administração da educação se inserem no movimento geral das ciências sociais e políticas. Na gestão da educação, da mesma forma como no governo da sociedade, as experiências destacam a importância da democracia como forma de governo e da participação como estratégia administrativa. Recentes estudos e experiências inovadoras no campo da educação insistem na necessidade de que a escola, assim como a comunidade local, devem autogovernar-se, conquistando maiores níveis de autonomia e descentralização administrativa. Esta orientação política implica renovadas estratégias de participação cidadã na gestão dos sistemas de ensino e na administração de escolas e universidades.

 No nosso caso particular, um dos resultados dos estudos que desenvolvi nos últimos 15 anos é a concepção do paradigma multidimensional de administração da educação, fundamentado na desconstrução e reconstrução dos conhecimentos pedagógicos e administrativos acumulados no curso da história da educação latino-americana. Na realidade, os modelos históricos de gestão escolar e universitária – definidos dialeticamente em termos de administração para a eficiência econômica, administração para a eficácia pedagógica, administração para a efetividade política e administração para a relevância cultural – são os elementos constitutivos de um paradigma heurístico e praxiológico de administração da educação, resultante de um esforço superador de síntese teórica da experiência latino-americana de gestão da educação no âmbito internacional. Essa reconstrução teórica exigiu um amplo enfoque interdisciplinar para tentar explicar os domínios das influências econômicas, políticas, culturais e pedagógicas na organização e na administração da educação no Hemisfério Ocidental. Por outro lado, tenho consciência que a tarefa apenas começou. Por isso, nunca é demais reiterar que o paradigma multidimensional, enunciado em sua forma original há mais de 15 anos como parte de minhas atividades acadêmicas na Universidade de Brasília e na Universidade Federal Fluminense, continua sendo uma proposta heurística e praxiológica inacabada, um modelo em vias de construção; construção resultante de um processo de aprendizagem permanente e de um esforço de superação intelectual, visando atender às sempre novas necessidades de nossas escolas e universidades.

Esse esforço reconstrucionista toma em conta os resultados da avaliação das contribuições e dos limites das grandes tradições filosóficas da humanidade que inspiraram o estudo das ciências sociais e da educação nos últimos séculos, especialmente a tradição organicista e evolucionista do positivismo e a tradição crítica e libertária do conflito. Meus esforços de construção teórica apóiam-se na convicção de que a avaliação das bases epistemológicas que têm inspirado as teorias organizacionais e administrativas adotadas historicamente na educação permite examinar mais exaustivamente o papel da mediação administrativa na organização e gestão dos sistemas de ensino e de suas escolas e universidades. No processo de avaliação, não faço concessões acadêmicas nem estabeleço condições teóricas. A única pré-condição está relacionada com os valores éticos estabelecidos coletivamente pela cidadania, como a liberdade e a eqüidade, que devem orientar a formação de uma sociedade capaz de promover a qualidade de vida humana individual e coletiva. É à luz desta postura ética que examino a natureza da educação e da qualidade de educação, bem como a aplicação dos conceitos de participação e democracia nos diferentes enfoques adotados na administração de nossas escolas e universidades.

Esta avaliação nos mostra como a tradicional administração tecnoburocrática de orientação positivista e funcionalista adotada no setor público e na educação latino-americana objetiva alcançar a ordem e o progresso racional, a reprodução estrutural e cultural, a coesão social e a integração funcional na escola e na universidade. Minha avaliação revela também que a administração tecnoburocrática assim concebida tem componentes autoritários e, como tal, limita o espaço para a promoção da liberdade individual e da eqüidade social. Seu caráter normativo e hierárquico inibe a criatividade e dificulta a participação cidadã na escola, na universidade e nas organizações sociais em geral. Embora favoreça a adoção formal da democracia política, ela inibe a prática efetiva da democracia social capaz de enfrentar as desigualdades estruturais na sociedade, na escola e na universidade. Numa versão superadora das teorias tradicionais de educação adotadas na sociedade liberal, foi possível conceber uma construção integradora de administração da educação, preocupada com o atendimento simultâneo das necessidades individuais e das exigências coletivas em termos de utilização dos serviços educacionais. A construção integradora de gestão da educação se apóia nos princípios do liberalismo social adotado hoje pelas forças liberais abertas à problemática social.

No lado oposto, as décadas de setenta e oitenta foram testemunhas de uma nova efervescência intelectual deflagrada pelos teóricos críticos nas universidades e associações de educadores na América Latina. No Brasil, esse esforço intelectual, alicerçado numa copiosa literatura européia e norte-americana, deu origem a uma teoria crítica de educação e de gestão educacional, cuja influência político-pedagógica não pode ser subestimada. A avaliação dos enfoques críticos de administração da educação nos mostra também que a preocupação prioritária com a denúncia da situação social e educacional do País – sem dúvida uma contribuição historicamente importante – nos fez descuidar, às vezes, a definição e aplicação oportuna de soluções educacionais viáveis para ampliar as oportunidades educacionais e elevar o nosso nível de qualidade de vida e de educação. Na realidade, a passagem da avaliação crítica da realidade organizacional e administrativa na educação para a aplicação de propostas efetivas de ação humana coletiva na escola e na universidade continua sendo um grande desafio para a gestão da educação. Numa versão superadora das teorias críticas do conflito, é possível conceber, a partir do trabalho pioneiro de Paulo Freire, uma construção dialógica de administração da educação que resgata o critério de totalidade e se identifica com os princípios adotados hoje pelas forças comprometidas com a reconstrução da perspectiva socialista e da natureza de civilização humana que ela implica. 
 
Em resumo, a avaliação da experiência educacional latino-americana das últimas décadas nos ensina que todos precisamos aprender, aprender uns dos outros, com o objetivo coletivo de conceber perspectivas intelectuais socialmente válidas e culturalmente relevantes que sirvam de guia para a pesquisa e a prática na administração da educação. Qualquer que seja a orientação que subscrevemos, é necessário superar sectarismos e fundamentalismos teóricos, através de uma postura intelectual aberta que seja capaz de identificar as contribuições e limitações das distintas perspectivas de gestão da educação. Para incorporar e potencializar as referidas contribuições e para superar as limitações, depurando seus aspectos politicamente alienantes e socialmente irrelevantes, a estratégia mais efetiva é a  participação cidadã, concebida como direito e dever de todos os integrantes da uma comunidade democrática, seja ela a escola ou a sociedade como um todo.

Novos desafios na gestão da educação: democracia e qualidade

Minha última contribuição nesta reflexão é o levantamento de alguns desafios conceituais e analíticos no campo da administração pública e da gestão da educação no contexto da nova ordem econômica e política internacionl. Neste sentido, estão em debate alguns temas polêmicos, como gestão educacional e desenvolvimento num contexto de interdependência internacional; formação humana sustentável e gerência social; teoria crítica e participação cidadã na gestão da educação; relevância da escola e efetividade da comunidade no contexto das promessas e falácias da descentralização administrativa; e gestão democrática para uma educação de qualidade para todos.

Por razões de tempo e de delimitação temática, vou referir-me especificamente ao último desafio, o da gestão democrática para uma educação de qualidade para todos. Para entender este desafio educacional e administrativo, começo por reportar-me à década de setenta, quando se esgota o período de reconstrução econômica da pós-guerra. Efetivamente, em meados da década de setenta se observa uma diminuição crescente do ritmo de crescimento econômico em todo o mundo. Uma de suas conseqüências é a redução relativa do gasto público social. Essa situação é especialmente aguda nos países pobres que, no final da chamada “década perdida” dos anos oitenta, começam a implantar seus planos de ajuste econômico para enfrentar a crise da dívida externa e da inflação interna. As crescentes pressões sobre o gasto público diminuem as fronteiras do Estado com um simultâneo movimento rumo à privatização. A crise se agrava diante das dificuldades para fazer recortes nos serviços públicos de educação, saúde e previdência social para uma população já fortemente pressionada pelas medidas de ajuste econômico e frente a um comportamento demográfico desfavorável.

Para administrar essa crise estrutural, muitos dirigentes, especialmente no setor público, à luz da filosofia neoliberal dominante, buscam soluções em Taylor e Emerson, pais da eficiência econômica na teoria administrativa. Efetivamente, durante a década de oitenta, observa-se uma crescente utilização de práticas neotayloristas na administração do Estado e na gestão das instituições sociais em geral. No entanto, estudos recentes sobre a gestão dos serviços públicos em países europeos, como a Grã-Bretanha por exemplo, comprovam que o movimento neotaylorista não conseguiu obter os resultados esperados, devido às crescentes restrições impostas ao gasto público social.2  Segundo as pesquisas, parte da conta teve que ser paga pelos servidores públicos, em termos de diminuição de salários reais e/ou redução de beneficios.

Numa tentativa de superação das dificuldades associadas às práticas neotayloristas, na transição para a década dos anos noventa muitos governos tentam adotar o enfoque do chamado gerencialismo com rosto humano na administração do Estado. A idéia é aplicar no serviço  público as mesmas concepções e práticas utilizadas no setor privado, em particular o modelo de gestão de qualidade total.3

Desde então vem se acentuando a produção acadêmica para definir a natureza da qualidade na administração dos serviços públicos e na gestão da educação em particular. Oservamos que, apesar do fascínio que exerce o conceito de qualidade total, existe uma indefinição generalizada sobre a sua utilização nas diversas organizações sociais em função da variedade de fins, de serviços e de interesses criados. São diferentes, por exemplo, os fins de empresas comerciais, de hospitais e de escolas. É diferente a natureza da indústria privada e da universidade pública. No interior da universidade, é diferente a natureza da administração acadêmica e da gestão dos serviços financeiros e materiais. São diferentes os interesses de dirigentes, de servidores e de estudantes. Apesar da ênfase que alguns teóricos procuram dar aos aspectos humanos no modelo de gestão de qualidade total, na sua aplicação prática existe reduzido espaço para a participação cidadã e a eqüidade. Onde estaria, então, o rosto humano de um modelo de administração que, ao invés de valorar a participação cidadã, destaca o poder central do dirigente para inspecionar e controlar o desempenho dos trabalhadores, utilizando padrões econocráticos e parâmetros uniformes para medir a qualidade de diferentes produtos ou serviços? Esta pergunta é particularmente pertinente, pois os fatos demonstram que na administração dos serviços sociais, como os de educação, a participação cidadã permanente, mais do que o poder controlador do dirigente de turno, é requisito indispensável para a consecução de elevados níveis de qualidade com eqüidade.

Estas observações não tratam de diminuir a importância da eficiência e da racionalidade como indicadores de qualidade na administração dos serviços educacionais.  Pelo contrário, por causa da importância central da qualidade na gestão da educação, a primeira preocupação concentra-se na necessidade de definir corretamente a natureza da qualidade de educação e do seu processo de administrativo. Obviamente, por causa da própria especificidade da educação, o conceito de qualidade total dos gerentes da moderna organização industrial não é automaticamente transferível nem operacionalizável na organização e na gestão da educação. Ou seja, não se podem aplicar conceitos e instrumentos de gestão e avaliação uniformes, de caráter universalista, para monitorar instituições e atividades tão heterogêneas do ponto de vista ideológico e organizacional. Nesse contexto, não é possível avaliar compreensivamente a qualidade profissional do educador e do servidor público em termos de consciência política e responsabilidade social na produção e prestação de serviços públicos à população pela simples verificação e medição de sua capacidade de concorrer mercadologicamente em termos quantitativos e materiais. Estas observações, além do exame da experiência peculiar da América Latina no setor público e na educação, sugerem a necessidade de realizar um renovado esforço intelectual e praxiológico para compatibilizar os progressos científicos e tecnológicos da administração moderna com os requerimentos específicos da administração pública e da gestão da educação. Nesse contexto, talvez nunca foi tão importante defender a tese da especificidade da administração da educação como campo teórico e praxiológico. Se não o fizermos, corremos o risco de descaracterizar a própria missão da educação e o próprio objetivo da escola e da universidade na sociedade moderna.

No mundo dos negócios o papel do cliente ou consumidor ocupa um lugar central na administração, em vista de que ele pode escolher entre diferentes serviços ou produtos. A tese é que a possibilidade de escolher entre diferentes produtos acirra a competição para elevar a qualidade dos serviços em oferta no mercado. No setor público, no entanto, não há clientes ou consumidores; há cidadãos com deveres e direitos. Além disso, muitas vezes a eleição de serviços no setor público é difícil, quando não impossível, por falta de opções alternativas. É impossível escolher entre distintos serviços de saúde se na comunidade somente existe uma clínica ou um hospital público. O mesmo é válido para a escolha de serviços educacionais se o município ou distrito mantém apenas uma escola pública. Esta é apenas uma característica entre muitas da especificidade dos serviços educacionais em milhares de comunidades pequenas, que sugere a necessidade de desenvolver outras alternativas de participação cidadã na gestão para a melhoria da qualidade de educação. Esta necessidade implica examinar questões relacionadas com estratégias institucionais específicas e com os direitos e deveres cidadãos em matéria de educação.

O primeiro requisito para abordar corretamente o tema da qualidade da administração da educação é resgatar a especificidade da educação e a natureza peculiar da qualidade de educação. Embora a escola e a universidade desempenham muitas funções diferentes, o ponto focal de sua ação é a educação, definida como instância de construção e distribuição do conhecimento socialmentes válido e culturalmente relevante para a cidadania. A qualidade de educação pode definir-se a partir de diferentes perspectivas conceituais e dimensões analíticas. É possível valorar a educação em termos políticos e em termos acadêmicos. A qualidade política de educação reflete a sua capacidade para alcançar os fins e objetivos políticos e culturais da sociedade. A qualidade acadêmica define o nível de eficiência e eficácia dos métodos e tecnologias utilizados no processo educacional. Também é possível valorar a educação em termos individuais e em termos coletivos. A qualidade individual define a contribuição da educação ao desenvolvimento da liberdade subjetiva e do interesse pessoal. A qualidade coletiva mede a contribuição da educação à promoção da eqüidade social e do bem comum.  Essas perspectivas ou dimensões refletem aspectos analiticamente distinguíveis de um conceito compreensivo de qualidade de educação, examinado à luz do princípio de totalidade. A articulação dialética das referidas dimensões permite elaborar um conceito superador de qualidade de educação, segundo o qual a dimensão acadêmica é subsumida pela dimensão política e a dimensão individual está estreitamente vinculada à dimensão coletiva.

A bibliografia pedagógica latino-americana destaca a centralidade da preocupação com a qualidade de educação, como o demonstram, por exemplo, as recentes revisões especializadas de Ernesto Schiefelbein4 e os atuais esforços de avalização institucional no setor universitário latino-americano.5 Alguns trabalhos recentes revelam uma orientação preocupada com a concepção de estratégias que combinam qualidade política, excelência acadêmica, eficiência organizacional e democratização da educação. Nesta linha, a contribuição de Juan Carlos Tedesco6 centra-se na construção de opções educacionais com elevados níveis de qualidade para todos, tratando de combinar a excelência acadêmica com a democratização do acesso aos conhecimentos socialmente significativos. Inés Aguerrondo7 concentra sua discussão na intersecção dos aspectos político-ideológicos e das opções técnico-pedagógicas na avaliação da qualidade dos serviços educacionais e da gestão para a melhoria da qualidade de educação. Cecilia Braslavsky e Guillermina Tiramonti,8 no seu estudo sobre a estrutura da administração pública da educação média argentina, analisam a relação da gestão educacional com a qualidade do ensino e o destino das propostas inovadoras relacionadas com a descentralização administrativa e a participação democrática. Na sua análise do papel da administração para a melhoria da qualidade das práticas educacionais, Graciela Frigerio e Margarita Poggi9 adotam um conceito compreensivo de qualidade de educação, definido-a como a integração da qualidade da organização institucional, dos recursos humanos e financeiros, da gestão do ensino, da proposta curricular e didática, do processo educacional e de seus resultados em termos de aprendizagem. Sylvia Schmelkes10 faz uma contribuição sumamente intrigante sobre qualidade de educação na escola básica, que permite fazer uma reflexão sobre os limites e as implicações dos novos enfoques de administração na educação contemporânea.

Em diversos estudos latino-americanos sobre a qualidade da educação e sua relação com a qualidade da gestão educacional há uma preocupação prioritária com a eqüidade e a relevância social da educação e do conhecimento para a cidadania. Cecilia Braslavsky e Guillermina Tiramonti resumem essa preocupação quando afirmam que “a busca da qualidade não deve ser feita às custas da eqüidade.”11 Jacques Hallack12 defende uma proposta de administração escolar capaz de articular criativamente os ideais de qualidade e eqüidade na prestação efetiva dos serviços educacionais. Por sua vez, Guiomar Namo de Mello revela a mesma preocupação com a qualidade e a eqüidade em sua proposta de uma escola pública de qualidade para todos e em sua discussão das novas exigências de uma gestão educacional construída a nível local, “que permita incorporar necessidades desiguais e trabalhar sobre elas ao longo do processo de escolarização, de modo a assegurar acesso ao conhecimento e satisfação das necessidades básicas de aprendizagem para todos.”13

Qualidade de educação para todos é, na realidade, o consenso político-pedagógico de alcance internacional mais importante adotado pelos governos no limiar do novo milênio.  O compromisso com a universalização de uma educação básica de qualidade foi reassumido na Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Jomtien, em março de 1990, sob os auspícios da UNESCO, da UNICEF e do PNUD. Desde então, observam-se novos esforços nacionais na educação latino-americana, especialmente nos países mais populosos, como o Brasil e o México que, ao assinar a Declaração Mundial de Educação para Todos, assumiram o compromisso de desenvolver um plano decenal para a universalização de uma educação básica de qualidade. Este é o tema central de numerosos programas e reuniões em todo o Hemisfério. No âmbito político do Sistema Interamericano, o ideal de educação de qualidade em todos os níveis de ensino, especialmente no nível de ensino básico, e a democratização da gestão da educação integram o plano de ação adotado pelos Chefes de Estado e de Governo na Cúpula das Américas, realizada em 1994 na cidade de Miami.

Nesse contexto, coloca-se o exame da hipótese de que a qualidade da gestão da educação é uma das variáveis explicativas da própria qualidade de educação, definida à luz das transformações internacionais que afetam a qualidade de vida humana em todo o mundo.  Na realidade, as transformações internacionais sem precedentes que se observam atualmente na economia e na sociedade têm reflexos imediatos no setor público, na educação e em suas práticas organizacionais e administrativas. Assim sendo, a administração fechada e hierárquica deve dar lugar à gestão horizontal com a utilização progressiva de redes interativas de organização e administração que facilitam a ação cooperativa e a comunicação interna e externa. A ação individual deve incorporar-se à ação coletiva mediante uma nova ética de cooperação e participação cidadã. O centralismo da administração nas instâncias superiores de governo deve dar passagem a um processo de descentralização para a gestão à nível de unidade escolar e universitária. Os princípios normativos e universais dos paradigmas tradicionais de administração devem dar lugar à adaptabilidade e à flexibilidade em função de características concretas. Enquanto os paradigmas tradicionais de administração enfatizam o produto e a quantidade de resultados  baseados num sistema de avaliação ex-post, as novas perspectivas de administração da educação valorizam, simultaneamente, a qualidade dos insumos, dos processos administrativos e laborais e dos  seus resultados, com base num sistema de avaliação qualitativa permanente que envolve a  todos os participantes e beneficiários ao longo do processo de gestão. Ou seja, a qualidade de educação deve dar sentido à quantidade dos serviços prestados pelas institutições de ensino. A participação coletiva e a busca do bem comum devem orientar a ação e o interesse individual. Em suma, o conceito-chave que deve inspirar uma teoria significativa e relevante de gestão da educação é o de qualidade de educação para todos, definido em termos político-ideológicos e técnico-pedagógicos à luz da conquista de elevados níveis de qualidade de vida humana coletiva.

O conceito de qualidade de educação para todos implica desenvolver um ambiente qualitativo de trabalho nas organizações educacionais, mediante a institucionalização de conceitos e práticas, tanto técnicas como administrativas, capazes de promover o desenvolvimento humano sustentável e a qualidade de vida de estudantes, professores e funcionários técnico-administrativos. Em termos operacionais, esses conceitos sugerem organizar as instituições educacionais e seus processos administrativos e pedagógicos com racionalidade e pertinência, para que possam contribuir efetivamente à construção e distribuição do conhecimento e à prestação de outros serviços relevantes para a comunidade e a sociedade como um todo. Neste contexto, a qualidade do pessoal das escolas e universidades ocupa um lugar central, já que a qualidade da atividade educacional está necessariamente relacionada com a qualidade dos trabalhadores da educação. Por sua vez, tanto a qualidade do trabalho dos esducadores como a qualidade dos resultados da atividade escolar e universitária estão estreitamente vinculadas à qualidade dos elementos organizacionais  e dos processos técnicos  e administrativos no lugar de trabalho, lugar que  inclui a sala de aula, a escola, a universidade e as instâncias superiores das Secretarias e do Ministério da Educação.

Embora a qualidade dos processos técnicos e dos procedimentos administrativos não deve ser subestimada, é preciso insistir que a razão de ser da estrutura organizacional e dos processos técnicos e administrativos das escolas e universidades é a sua missão política e cultural e o seu objetivo pedagógico. No entanto, mesmo que a missão política e cultural e os objetivos pedagógicos sejam os elementos centrais das institutições de ensino, muitas vezes o processo administrativo para alcançá-los é um fator crítico, pois se falha o processo administrativo em termos de racionalidade, eficiência, transparência e efetividade, falham a missão e o objetivo, os serviços e os resultados. Portanto, os procedimentos administrativos, os processos técnicos e a missão das instituições educacionais devem ser concebidos como componentes estreitamente articulados de um paradigma compreensivo de gestão para a melhoria da qualidade de educação para todos.  Efetivamente, a articulação dialética dos referidos componentes permite conceber um paradigma superador de gestão da educação, segundo o qual os processos técnicos e os procedimentos administrativos são subsumidos pela missão política e cultural e pelos objetivos pedagógicos das escolas e universidades. Da qualidade da gestão assim concebida e exercida depende, em grande parte, a capacidade institucional para construir e distribuir o conhecimento, definido como o fator-chave dos novos padrões de desenvolvimento e da nova matriz de relações sociais, tanto a nível nacional como no âmbito internacional.14

À guisa de conclusão

A construção e reconstrução do conhecimento na educação e na gestão educacional comprometida com a qualidade e a eqüidade implicam um grande esforço. Este esforço assume proporções enormes no Brasil e na América Latina em geral, que necessitam  multiplicar urgentemente seus conhecimentos científicos e tecnológicos para que possam participar ativamente e beneficiar-se eqüitativamente da transformação política e econômica sem precedentes do mundo moderno.

Portanto, os educadores latino-americanos têm diante de si um grande desafio. No caso específico do Brasil, este é um dos desafios concretos para a Associação Nacional de Política e Administração da Educação (ANPAE) e seus associados. Nesse sentido, o curso que há de seguir a história da administração da educação brasileira na nossa caminhada para o terceiro milênio depende, em parte, da nossa capacidade para enfrentar este desafio com responsabilidade cidadã e espírito público. Para fazê-lo, uma das exigências é superar “os preconceitos acadêmicos e as teorias prefixadas,”15 na feliz expressão do grande mestre latino-americano Juan Del Prete. Da mesma forma como Del Prete foi capaz de sintetizar brilhantemente contribuições tão diversas como as de Giotto, Cézanne e Matisse para produzir uma obra plástica de notável identidade e atualidade, demos asas, nós também, a nossa criatividade, livres de preconceitos e teorias prefixadas mas comprometidos com princípios éticos de validade geral, para escrevermos juntos, participativamente, um novo capítulo, um capítulo superador, da história da administração da educação em função das necesidades concretas de nossas escolas e universidades.

Mas que tipo de administração? E para que tipo de educação? Penso numa administração da educação inovadora. Uma administração construída e exercida coletivamente. Uma administração capaz de promover uma educação com identidade. Uma educação com eqüidade. Uma educação de qualidade para todos.

Notas e Referências

1. Ver Benno Sander, Gestão da educação na América Latina: Construção e reconstrução do conhecimento, Campinas, SP, Editora Autores Associados, 1995; B. Sander, Gestión educativa en América Latina: Construcción y reconstrucción del conocimiento, Buenos Aires, Editorial Troquel, 1996; B. Sander, Educational management in Latin America: Construction and reconstruction of knowledge, Washington, DC, Organization of American States, Education Series, 1996.
2. Ver, por exemplo, Christopher Pollit,“¿Qué es calidad de los servicios públicos?,” in Bernardo Kliksberg, ed., Pobreza: un tema impostergable, México, Fondo de Cultura Económica, 1993, pp. 293-306.

3. Para uma avaliação crítica do conceito neoliberal de qualidade total na educação, ver Pablo A. A. Gentili y Tomás Tadeu da Silva, org., Neoliberalismo, qualidade total e educação, Petrópolis, Vozes, 1994.  A coletânea, que contém ensaios de Tomás Tadeu da Silva, Gaudêncio Frigotto, Mariano Fernández Enguita, Pablo A. A. Gentili e Michael W. Apple, representa um ponto de partida para a discussão das propostas neoliberais na educação e nas ciências sociais. Para o estudo da aplicabilidade dos conceitos de qualidade total na gestão dos serviços sociais, ver Bernardo Kliksberg, ed., Pobreza: Un tema impostergable, México, DF, Fondo de Cultura Económica, 1993, pp. 91-108 e 353-368.

4. Ernesto Schiefelbein, “La investigación sobre calidad de la enseñanza en América Latina,” La Educación, Washington, DC, Ano XXVIII, nº 96, 1984, pp. 88-116; E. Schiefelbein, “Estrategias para elevar la calidad de la educación,” La Educación, Washington, DC, Ano XXXVIII, Vol. 1, nº 117, 1994, pp. 1-18.

5. Ver, por exemplo, José Dias Sobrinho, Avaliação institucional da UNICAMP, org., Campinas, SP, Universidade de Campinas, 1994; Carlos Marquis, org., Evaluación Universitaria en el Mercosur, Buenos Aires, Ministerio de Cultura y Educación, 1994; José Joaquín Bruner, Evaluación de la calidad académica en perspectiva internacional comparada, Santiago, FLACSO, Série Educação e Cultura, nº 23, 1992; Simón Schwartzman, “La calidad de la educación superior en América Latina,” in ICFES, Calidad, eficiencia y equidad en la educación superior colombiana, Bogotá, Vol. l, 1990; Antonio Amorim, Avaliação institucional da universidade, São Paulo, Cortez Editora, 1992; Ana Maria Saul, “Avaliação da universidade: Buscando uma alternativa democrática,” Dois Pontos, nº 12, 1988.

6. Juan Carlos Tedesco, El desafío educativo: Calidad y democracia, Buenos Aires, Grupo Editor Latinoamericano, 1987.

7. Inés Aguerrondo, “La calidad de la educación: Ejes para su definición y evaluación,” La Educación, Washington, DC, Ano XXXVII, Vol. 111, nº 116, 1993, p. 563.

8. Cecilia Braslavsky e Guillermina Tiramonti, Conducción educativa y calidad de la enseñanza media, Buenos Aires, FLACSO/Miño y Dávila Editores, 1990.

9. Graciela Frigerio y Margarita Poggi, Las instituciones educativas cara y ceca: Elementos para su gestión, Buenos Aires, Troquel, 1994, p. 91.

10. Sylvia Schmelkes, Hacia una mejor calidad de nuestras escuelas, Washington, DC, Organização dos Estados Americanos, Coleção INTERAMER, 1994.

11. Cecilia Braslavsky e Guillermina Tiramonti, Op. cit., p. 176.

12. Jacques Hallack, Managing schools for educational quality and equity: Finding the proper mix to make it work, Paris, UNESCO, IIPE, 1992.

13. Guiomar Namo de Mello, Cidadania e competitividade: Desafios educacionais do terceiro milênio, São Paulo, Cortez Editora, 1993, p. 39.

14. Para a discussão da importância do conhecimento na sociedade atual, ver CEPAL e UNESCO, Educación y conocimiento: Eje de la transformación productiva con equidad, Santiago, OREALC, 1992.

15. Rafael Squirru, “Plenitud de Juan Del Prete,” La Nación, Buenos Aires, 25 de maio de 1996, p. 7.

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