O tema central desta obra, publicada em três versões distintas – uma em espanhol, outra em inglês e a terceira em português – é a construção do conhecimento na administração da educação na América Latina. Baseado na análise das raízes históricas e tradições culturais da educação latinoamericana, a obra discute perspectivas conceptuais alternativas no campo da administração da educação e examina seus fundamentos epistemológicos e preocupações éticas. A versão em língua espanhola foi publicada pela Editora Triquel na cidade de Buenos Aires. Veja a resenha de José Eustáquio Romão e o comentário de Walter E. Garcia.
Resenha do Livro por José Eustáquio Romão
Gestão da Educação na América Latina: Construção e Reconstrução do Conhecimento, de Benno Sander. Campinas, SP: Editora Autores Associados, 1995.
Em boa hora aparece o livro de Benno Sander, porque a mesmice, as repetições, a falta de novidades, que tem caracterizado a maior parte da literatura pedagógica brasileira, e a dispersão das contribuições minoritárias mais criativas já estavam a cobrar uma obra que ultrapassasse aquelas e sintetizasse estas. Sim, porque embora com um título que possa sugerir ao leitor tratar-se de um texto específico sobre administração escolar, o trabalho de Benno acaba por ser uma contribuição mais extensiva e profunda sobre todos os problemas que têm afetado a educação latino-americana em geral e a brasileira em particular.
Primeiramente, ele repassa criticamente as matrizes, mimeticamente assumidas, do pensamento administrativo latino-americano, com seus enfoques jurídico, tecnocrático, comportamental, desenvolvimentista e sociológico. Em segundo lugar, o autor recupera as quatro categorias que têm ocupado a centralidade e a teleologia do campo específico da administração da educação no pensamento educacional latino-americano: eficiência, eficácia, efetividade e relevância. Aí, Benno dá uma grande contribuição à precisão dos termos, não só pelo estudo de sua origem etimológica – que, quase sempre, permite eliminar ambigüidades, especialmente se aliado à história de sua utilização – como também pela notável síntese orgânica, que faz ao final do capítulo II do livro, consagrado ao tema. Aí se encontra o cerne da obra e a grande contribuição de Benno Sander ao pensamento pedagógico latino-americano: ele dedica o melhor de seu empenho e talento para a construção de um paradigma de administração da educação, que acaba por se transformar numa matriz reflexiva sobre todo o processo educacional. Chama-o de “paradigma multidimensional,” na medida em que ele compreende não só as dimensões analíticas (intrínsecas e extrínsecas), como também as que dizem respeito à própria natureza do ato educativo (substantivas e instrumentais), todas elas referenciadas aos respectivos critérios de relevância (dimensão cultural), efetividade (dimensão política), eficácia (dimensão pedagógica), eficiência (dimensão econômica).
Em um estudo dessa natureza, não é muito fácil chegar aos resultados a que Benno chegou, a não ser que se mobilize todo o esforço reflexivo e toda a experiência acumulada em décadas de reflexão e de prática. Na verdade, Benno, como qualquer outro autor, corre um enorme risco: o do ecletismo. No entanto, com rara felicidade, sem fazer média com todas as teorias e suas estruturas significativas, Benno consegue integrá-las numa “síntese orgânica,” que incorpora as contribuições das diversas formulações, depura seus aspectos alienados/alienantes e as transfigura em componentes de uma proposta de administração educacional inovadora que, sem dúvida nenhuma, faz avançar a reflexão e, certamente, fará avançar a própria ação neste campo.
No capítulo III, Benno se torna mais abrangente, ao recuperar uma categoria de totalidade, geralmente desprezada pelos pensadores pedagógicos, principalmente a partir da onda neoliberal que desqualificou uma análise mais histórico-sociológico-política, chamada por vários estudiosos de perspectiva crítica. Benno retoma a relação da educação com a qualidade de vida, especialmente no contexto latino-americano e, numa perspectiva histórica, redesenha o cenário e reescreve a trama das propriedades e distorções, das clarividências e ambigüidades, dos avanços e recuos, das euforias e desenganos que as diversas matrizes do pensamento administrativo educacional tiveram na América Latina. Na medida em que faz tal reconstituição histórica, Benno vai garimpando mais elementos para a lapidação de sua teoria multicultural e multidimensional da administração educacional, sem qualquer receio de arrostar a ira das ortodoxias empobrecedoras, nem cair – por isso mesmo – na armadilha de renunciar a princípios e bandeiras, simplesmente porque eles foram apropriados, indevidamente, pela onda neoconservadora. Assim, temas como descentralização e qualidade do ensino são encarados dialeticamente, e não simplesmente abandonados porque também figuram – evidentemente deturpados – no ideário pedagógico neoliberal que varre o mundo.
É interessante observar que Benno, mesmo ocupando elevado cargo em organismo internacional – Organização dos Estados Americanos (OEA) – não se deixou levar pelo canto da sereia neoconservadora que tem caracterizado esses organismos, ao mesmo tempo que também não teve receios de construir um pensamento crítico, radical, sem cair no criticismo e no sectarismo.
Vale a pena, neste final de resenha, citá-lo em uma de suas memoráveis clarividências:
É possivel valorar a educação em termos substantivos ou políticos e em termos instrumentais ou acadêmicos. A qualidade substantiva da educação reflete o nível de consecução dos fins e objetivos políticos e culturais da sociedade. A qualidade instrumental define o nível de eficiência e eficácia dos métodos e tecnologias utilizados no processo educacional. Também é possível valorar a educação em termos individuais e em termos coletivos. A qualidade individual define a contribuição da educação ao desenvolvimento da liberdade subjetiva e o interesse pessoal. A qualidade coletiva mede a contribuição da educação à promoção da eqüidade social e do bem comum. Essas perspectivas ou dimensões refletem aspectos analiticamente distinguíveis de um conceito compreensivo de educação. Na realidade, é precisamente a articulação dialética das referidas dimensões que permite elaborar um conceito superador de qualidade de educação, segundo o qual a dimensão instrumental é subsumida pela dimensão substantiva e a dimensão individual está estreitamente vinculada à dimensão coletiva. Este é o conceito totalizador e multicêntrico que inspirou a construção de nosso paradigma multidimensional de administração da educação (SANDER, pág. 152)
Finalmente, embora não fosse objetivo da obra, Benno conclui o trabalho refletindo sobre a ética na cooperação internacional, fazendo uma oportuna diferenciação entre assistência técnica/ajuda financeira e cooperação. Destaca que o primeiro enfoque predominante nas relações dos países ricos com os do subcontinente, é – por natureza – hierárquico, autoritário e intervencionista.
Gratificou-nos ter sido um dos primeiros a ler o livro de Benno, logo após sua publicação. Gratifica-nos indicar sua leitura aos pesquisadores, administradores e educadores de nosso país.
Por José Eustáquio Romão
Secretário-Geral do Instituto Paulo Freire
Este livro foi publicado simultaneamente nos Estados Unidos sob o título Educational Management in Latin America: Construction and Reconstruction of Knowledge, Washington, DC, Organization of American States, Education Series, 1996. Também foi publicado na Argentina sob o título Gestión Educativa en América Latina: Construcción y Reconstrucción del Conocimiento, Buenos Aires, Editorial Troquel, 1996.
Comentário sobre Livro por Walter E. Garcia
Gestão da Educação na América Latina: Construção e Reconstrução do Conhecimento, de Benno Sander. Campinas, São Paulo: Editora Autores Associados, 1995.
Estou particularmente contente por participar deste debate com Benno Sander, não só em razão do lançamento de seu último livro – Gestão da Educação na América Latina: Construção e Reconstrução do Conhecimento – mas também por considerar que esta obra é o retrato mais fiel da evolução de seu Autor, que todos conhecemos por seus trabalhos anteriores nas áreas de Planejamento e Administração da Educação. Neste último texto, Benno revela sua elevada capacidade de refletir sobre a evolução educativa das últimas décadas, indicando que o conhecimento da educação necessita de construção e reconstrução permanentes, face à multiplicidade de enfoques e teorias que alimentam esse processo. Embora difícil, Benno cumpre seu objetivo com elevada propriedade, especialmente no capítulo 2, quando estabelece as bases do paradigma multidimensional de administração da educação. O esforço conceptual de Benno, neste aspecto, merece ser atentamente observado, especialmente porque, ao indicar a presença de componentes culturais, políticos e econômicos na análise educativa, oferece um quadro estimulante para que possamos compreender o que ocorre em nossos dias na América Latina e no Brasil em especial.
O surgimento deste livro encontra o Brasil debatendo se, com certo atraso é bem verdade, com teses que nos são impostas desde os países centrais, com amplo respaldo de organismos financeiros internacionais, e que chegam até nós como receitas a serem seguidas, porque os consensos são estabelecidos a partir de uma visão hegemônica dos países centrais sobre os países periféricos. Teses como seletividade dos investimentos sociais, privatização, reducionismo da ação estatal, entre outras, poderiam até ser aceitas, desde que nascidas e alimentadas no interior de cada país, a partir de um amplo debate democrático. As mesmas teses que circularam em outros países da região nos anos oitenta, são agora propostas entre nós como a última verdade a ser posta em prática para o vestibular da modernidade. Em todos os lugares, o objetivo é o mesmo: subordinar as metas políticas aos desígnios econômicos.
Para este quadro que tende a unificar propósitos e políticas, Benno indica que o conceito de qualidade de vida humana "é o critério chave para guiar o estudo das organizações sociais e da educação" (pág. 78). Ao justificar essa posição, o Autor defende a cidadania como eixo básico das políticas do Estado e referencial de equilíbrio político que não se subordina aos critérios de eficiência econômica que, sem controles estritos, tende a produzir exclusão social e econômica em benefício de pequenos grupos. A liberdade e a democracia, tão caras às tradições políticas do Ocidente, são referências que devem orientar os educadores na formulação de suas propostas, indica Benno em várias passagens de sua obra.
As análises de Benno não estão distantes das discussões que se fazem na maioria dos países da região e, neste sentido, vale a pena seguir suas reflexões críticas sobre os modelos que tentam implantar novamente no sistema educativo as antigas idéias de Taylor e Emerson, como se a lógica empresarial pudesse sobrepor se aos objetivos educacionais. O discurso implícito nesta tentativa de transpor a lógica empresarial para o âmbito educativo deu origem às propostas da qualidade total. Benno adverte que ao passar de um campo específico, com seus objetivos peculiares, para o domínio educativo, temos que observar os compromissos que esta ação implica para os cidadãos. A adoção do conceito econômico de qualidade na educação deve subordinar-se aos princípios de eqüidade e participação, entre outros. Em períodos de ajustes e de restrições orçamentárias, nem sempre será fácil garantir a qualidade com estas conotações sociais. No entanto, para o Autor fica evidente que os reducionismos economicistas que se abrigam no conceito de qualidade total, pouco têm a ver com a visão cidadã dos educadores.
Ao parabenizar o Autor por esta importante contribuição ao pensamento educacional latinoamericano, gostaria de registrar também algumas observações sobre a pessoa de Benno, que certamente ajudarão a compreender melhor a importância do Ser Humano/Autor no contexto do nosso continente.
Primeiro, Benno é um dos poucos autores do nosso meio que adota a saudável prática de pedir a outros colegas que leiam seus textos antes que eles sejam publicados. Esta atitude, além de denotar grande segurança pessoal, é reveladora de um elevado respeito profissional para com seus pares, ao valorizar suas contribuições e análises. Autor e Leitor estabelecem, neste momento, um diálogo de mútuo enriquecimento. Esta prática, sumamente saudável, deveria ser adotada por todos nós.
Segundo, a partir de sua experiência internacional como alto funcionário da OEA, Benno tem conseguido incorporar as vivências e trabalhos de sua função internacional às análises que produz no campo específico da Educação. E faz esta passagem com rara competência. Isto é particularmente importante porque no caso de Benno o Educador se enriquece com a experiência do Funcionário Internacional; ao contrário do que ocorre, muitas vezes, com colegas que, em situações semelhantes, são cerceados em suas posições substantivas de educadores ao terem que adotar posturas impostas pelo organismo empregador. Por suas posições independentes como Educador, Benno tem hoje o reconhecimento internacional merecido, independentemente de sua condição de funcionário de organismo internacional.
Terceiro, em razão de sua peculiar maneira de inserção na área educativa, Benno é um Autor que conseguiu romper os limites estreitos da produção acadêmica habitual, conforme o modelo gerado à época em que predominaram os regimes militares no Continente. Como bem analisou José Eustaquio Romão, em recente resenha desta obra, Benno consegue, fugindo do ecletismo, uma síntese orgânica que incorpora distintas formulações conceptuais e analíticas. Isto deve ser saudado como mais uma qualidade que se soma às muitas outras da personalidade de Benno. Profissional sério, disposto a compartir idéias e permanentemente aberto a novos desafios.
Walter E. Garcia
Diretor do Instituto Paulo Freire
Presidente da Associação Brasileira de Tecnologia Educacional
Publicado sob o título “A Maturidade Intelectual de Benno Sander,” in Anais do 1º. Simpósio Regional de Administração da Educação do Nordeste, realizado em Fortaleza, Ceará, de 29 a 31 de maio de 1996, pp. 156-158.